A gaúcha Marina Adams esteve na UEL para lançamento de exposição com arquivos do projeto Opening The Archives, que ela coordena na universidade Brown, nos Estados Unidos
Cecília França
Marina Adams fez um caminho acadêmico sinuoso, nas palavras dela, para chegar até a pesquisa de relações de gênero na ditadura militar brasileira. Graduada em Artes, fez uma segunda graduação em Estudos de Gênero e História, já nos Estados Unidos, e atualmente é candidata ao doutorado na universidade Brown.
A pesquisadora esteve na Universidade Estadual de Londrina (UEL) no dia 28 de agosto para o lançamento da exposição As Terras do Paraná: conflitos sob o prisma dos arquivos inéditos do século XX, montada a partir de pesquisas nos arquivos do Serviço Nacional de Informações (SNI-BR) e do projeto Opening the Archives, criado pelo professor James Green e coordenado por Marina há quatro anos.
“Eu estudei na graduação o Movimento Feminino pela Anistia. No doutorado comecei a trabalhar no Opening the Archives porque ele tem uma missão acadêmica e política também. Uma missão de transparência de arquivos que vai muito de encontro com esse meu interesse acadêmico de entender as estruturas, as afetividades políticas do Brasil atual”, explicou ela em entrevista à Rede Lume.

Seu interesse por estudar a influência de questões de gênero na política surgiu em um momento complicado da história recente do Brasil: o impedimento da presidenta Dilma.
“Eu sempre tive esse interesse de entender a resistência das instituições políticas à participação da mulher. Não é impenetrável, porque nós tínhamos uma mulher presidente, mas existe uma resistência dentro de um trato de afetividade política que pautou muito esse meu interesse”, disse.
“Meu trabalho é sobre uma história de gênero na ditadura, as relações entre gênero e autoritarismo e, particularmente, como as mulheres acham espaços de atividade política dentro desse contexto”.
Confira os principais trechos da entrevista com a pesquisadora.
Relações de gênero na ditadura
“Entender as dinâmicas de gênero da ditadura militar – que, óbvio, não começam ali, mas que aparecem de uma forma específica durante a ditadura – é essencial para entender um contínuo de política no Brasil. Como nós nos entendemos enquanto seres políticos no Brasil. Isso é pautado pelo gênero, pelas normas conservadoras ou não de gênero (no Brasil, mais conservadoras). Então a ditadura é um momento de inflexão onde muitas das coisas que hoje pautam a nossa política são sedimentadas e institucionalizadas. Acho que isso é uma das coisas que eu tenho encontrado muito dentro da minha própria pesquisa.

A gente pensa muito na unidade familiar e ela é algo baseado nas ideias de gênero. Entender como essa unidade, sendo a unidade mínima do estado durante a ditadura, provê um tipo de institucionalização, de estruturação de instituições, de dinâmicas e inclusão de certas organizações dentro de pautas de governo. E isso provêm um modelo político que continua conosco ainda.
A gente vê que a ditadura militar, principalmente, está aí, diariamente, como esse grande espectro quase não falado. Mesmo nas discussões agora sobre o 8 de janeiro, na CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito). Se fala muito dos militares, mas não se fala tanto por que os militares são esse grande “bicho papão” da política brasileira. Os militares, historicamente, têm essa questão de se entenderem como o poder moderador, saindo do Império. Então sempre tiveram uma certa atividade política que, na minha opinião, não compete ao Exército.
Mas na ditadura, particularmente, os militares se tornam grandes algozes da população brasileira em algo que nunca foi resolvido. A Lei de Anistia de 1979 garantiu que não houvesse resolução para essa questão e é disruptivo pensar na ditadura exatamente por causa desse processo conciliatório, forçado, de certa forma, que ocorre nos anos 1970. Então não existe uma boa vontade, uma pré predisposição de falar da ditadura nesses termos porque é disruptivo.
A história nos permite falar dessas coisas e nos permite, de certa forma, “comer pelas beiradas”. A gente está na academia, a gente vai escrevendo, faz uma exposição e vai ganhando espaço e, ao mesmo tempo, revela dinâmicas novas.”
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As revelações dos arquivos
“Quando a gente pensa em arquivo, tem muita coisa que sempre soubemos, porque a ditadura não manteve em segredo, necessariamente. Sempre foi especulado, por exemplo, que a morte da Zuzu Angel tinha sido ordenada pelo regime. Mas não faz dez anos que o Carlos Fico publicizou os documentos, que estavam lá no CPDOC. Então acontece muito isso para nós no Opening the Arqhives. Porque a participação dos Estados Unidos no regime militar sempre foi uma coisa sabida, mas volta e meia a gente acha um documento que diz exatamente aquilo que já sabíamos, de certa forma.
Esses documentos são importantes para respaldar relatos orais e para revelar de fato as verdadeiras complexidades daqueles momentos. Porque o jeito que a gente lembra as coisas que só são sabidas pelo “boca a boca” também são moldadas por quem conta. Então essa perspectiva de entender como os Estados Unidos tentam influenciar o Brasil, mas também como os Estados Unidos é influenciado de volta, isso é uma coisa que realmente a abertura desses arquivos possibilita.”
Como gênero, conflito agrário e ditadura se cruzam
“Essa temática do conflito agrário é muito pautada também para o momento que a gente vive. Existe uma questão de interesse, de entender o que nos trouxe até aqui, como o movimento agrário foi atingido durante a ditadura, como chegamos a esse ponto de estarmos na quarta CPI do MST. Nessa exposição nós temos arquivos da CIA (Agência de Inteligência norte-americana) nos quais eles revelam interesses econômicos.
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Quando a gente olha os interesses norte-americanos geralmente eles são econômicos, não são muito ideológicos. Óbvia que essa questão da reforma agrária mobiliza muito o discurso por causa do momento da Guerra Fria e a reforma agrária ter sido uma pauta grande tanto da União Soviética quanto da Revolução Cultural Chinesa e dos movimentos latino-americanos. Então ela tem esse papel discursivo. Mas o que interessa aos Estados Unidos, como a gente vê pela documentação da CIA, não é necessariamente combater ideologicamente.
Talvez no início, sim, eles estavam muito preocupados com o movimento campesino. Ali em 1964 é algo que eles usam para mobilizar a necessidade de uma intervenção. Então, entender quais são os interesses se faz presente profundamente na questão agrária.
A questão de gênero fica muito a cargo de entender quem é esse sujeito do campo. Tem muito o entendimento dentro do regimento totalitário da família como unidade básica do estado e essa família é pautada por papéis de gênero. Isso também pauta como nós lembramos quem é o sujeito, quem é ‘O’ camponês. Então não é necessariamente o foco dessa exposição, mas ela se faz presente à medida que a gente observa quem é o sujeito que cria ansiedade ao regime, quem é o sujeito que é pautado pela mídia, quem é o sujeito que não aparece.”
Misoginia influenciou impedimento de Dilma
“Com certeza influenciou. Isso precisa de um estudo sociológico e eu vou poder falar disso daqui a 50 anos, que é o tempo histórico.
Eu sou de Porto Alegre, mas morei em Brasília desde os 8 anos de idade e lá a gente acompanha um pouco desde o centro da política. O que eu vi e ouvi muito foi uma noção de política afetiva, que o problema ali não era exatamente ser uma mulher – talvez para os “Bolsonaros”, os “Felicianos”, mas para o centro, digamos, tradicional da política é uma questão de ser recebido, de se sentir visto, que é pautada pelo gênero. Aquela coisa de ‘Ah, se ela tivesse recebido o Eduardo Cunha’ (presidente da Câmara que pautou o impeachment à época). Era um concurso, uma competição de quem pode mais e ela não engajou nessa competição, ela não recebeu.
Onde eu acho que a misoginia pesa, o sexismo, o machismo, ainda mais, é que muitos dos erros que a Dilma cometeu seriam facilmente perdoados – e foram – para homens. Não acho que ela foi removida porque ela é mulher, mas ela ser mulher influencia o processo e culmina na forma que culminou.
Acredito que a experiência dela enquanto guerrilheira deve ter influenciado muito na própria afetividade política, porque não tem como passar pelo que ela passou sem ter um perfil completamente diferente. Acho que aí a gente entra em especulações, mas que a misoginia pesa não na atitude em si, mas qual é o limite das pessoas em receber aquela atitude. Aí o gênero entra como uma questão fundamental.”
Desafios de pesquisar sobre gênero
“São muitos. A gente não pode dizer no Brasil no momento que é um tópico não estudado. Tem pesquisadoras sensacionais pelo Brasil inteiro que estão prestando atenção na mulher e que têm escrito sobre mulheres. Então o desafio não é ser um campo inexplorado. Mas existe um desafio metodológico de entendimento de arquivo.
No final da ditadura, quando se começou a publicar coisas, Amelinha Teles publicou um livro que se chama Breve História do Feminismo no Brasil, que, ao que eu tenho registrado, é a primeira história. É um livro de resgate. O objetivo dele é de estabelecer que as mulheres fizeram parte dessa história, que não dá para excluir. Então é um livro que se debruça muito em análises, porque é uma necessidade imediata. O que acontece é que por causa da falta, da marginalização de história de mulheres, por muito tempo ficamos fazendo história de mulheres – o que também é super necessário. Mas acho que agora o que se faz necessário são trabalhos analíticos acerca do gênero no Brasil. E aí a gente começa a sair um pouco das caixinhas e entram os desafios metodológicos.
Se as mulheres não estão no arquivo, porquê? De quais mulheres a gente está falando? E na minha pesquisa tenho o desafio de como incluir esses debates e essas discussões entendendo que, por causa do meu recorte temporal e de arquivo, muitas mulheres vão ficar de fora. Então existe uma necessidade metodológica de integração da análise do que falta, em vez de só observação. E isso eu acho um desafio bem grande, sem o qual a gente realmente não tem como apresentar uma imagem completa do que foi exatamente esse período no Brasil.”
Importância da exposição “As Terras do Paraná”
“Acho que uma exposição como essa, um documentário como esse, causam disrupção, sempre. Porque você é deparado com vozes, com documentos, com provas tangíveis de acontecimentos e de ocorridos que põe em xeque às vezes o que acredita ou deixa de acreditar.
Ainda tem muita gente que acredita que sua vida não foi influenciada de nenhuma forma pela ditadura. Então acaba que a gente começa a criar o mito de que só foi atingido quem foi preso e torturado. E a própria ideia de quem foi preso e torturado já é muito reduzida, porque eles falam apenas da luta armada. Aí já entra nos discursos da esquerda, aquelas coisas. Então acho que exposições como essas demonstram como todo mundo foi atingido pela ditadura.
Não tem como dizer que você morava num país assolado pela repressão e não foi atingido pela repressão de alguma forma. A repressão não precisa ser um agente que vem, te sequestra e te tortura. A repressão pauta o comportamento social e pauta como as pessoas se tratam entre si.
Relativamente poucas pessoas estudam a ditadura no Brasil. Mesmo assim existem muitos trabalhos extremamente interessantes aparecendo. E eu acho que um dos problemas principais – e parece uma obviedade para mim – entender como você foi atingido pela ditadura às vezes implica entender como você participou ativamente da repressão. E é isso que as pessoas não querem entender. Como elas delataram o coleguinha, como elas reproduziram o discurso do autoritarismo, como elas engajaram dessa forma. Isso acaba criando um problema social, cultural, que tem pouquíssimas pessoas dispostas a enfrentar.”
Críticas ao conhecimento restrito à academia
“O Brasil é um dos países que mais produz teses de mestrado, doutorado, graduação e é um dos que menos consume sua produção. Em parte, tem a ver com as condições da academia, mas em parte, também, tem a ver com a acessibilidade dos formatos acadêmicos requeridos. Dentro da minha pesquisa eu trabalho com aspectos de entender como essas produções acadêmicas devem ser feitas não visando a academia, mas visando o público interessado naquilo. Porque não adianta eu vir aqui conversar com um monte de mulher e depois elas nunca terem acesso ao que eu vou escrever. E não digo só acesso físico, mas no meu caso tem uma questão de tradução.
Então acho que existem vários pesquisadores, como eu, que estão preocupados com essa questão, que produzem coisas como essa exposição, que trabalham com as comunidades, que fazem esse tipo de engajamento das humanidades. E eu acho isso tem que virar regra.”
