Integrantes do Fórum Desenvolve Londrina recebem liderança da CUFA para discutir a realidade dos territórios vulneráveis e propor soluções para a desigualdade social
Mariana Guerin
Fotos: Mariana Guerin
A “quebrada” visitou o Centro de Londrina nesta quinta-feira (8) na pessoa da coordenadora regional da Central Única das Favelas (CUFA), a educadora social Lua Gomes. Ela saiu cedinho do Vista Bela, na Zona Norte, onde mora com as três filhas, para apresentar uma palestra aos integrantes do Fórum Desenvolve Londrina, na sede da Associação Médica de Londrina (AML) . A apresentação abordou as oportunidades de trabalho e renda para pessoas em territórios vulneráveis.
Após a palestra, que durou cerca de duas horas, Lua foi reconhecida pelo seu espírito de liderança, herdado da avó, “líder comunitária intuitiva, referência que me ajudou a construir meu instinto de comunidade”, nas palavras dela. Leia aqui uma entrevista que a Lume fez com Lua em setembro de 2020.
A maioria das pessoas que a assistiu na AML desconhecia a realidade das comunidades londrinenses. Composto por entidades e pessoas de diversos segmentos, o Fórum Desenvolve Londrina tem como objetivo unir e mobilizar a sociedade para o desenvolvimento sustentável de Londrina e região, por meio do planejamento estratégico integrado e participativo.
O fórum foi instituído pelo Decreto Municipal 556, de 11 de novembro de 2005, e tem o papel de prospectar o futuro da cidade, propondo, influenciando, promovendo e apoiando políticas e iniciativas públicas e privadas de desenvolvimento sustentável. Para isso, a cada ano, o grupo lança um estudo com tema específico.
Entre os assuntos já debatidos nas publicações estão geração de emprego, economia criativa como desenvolvimento sustentável, cidades inteligentes, gestão pública, resíduos sólidos, industrialização, saúde, mobilidade urbana, terceiro setor, adolescentes em conflito com a lei, entre outros.
Na ‘quebrada’: Conexões Londrina é braço da CUFA no Norte do Paraná
Lua iniciou sua palestra contando como surgiu o projeto Conexões Londrina, braço da CUFA no Norte do Paraná. Começou com uma iniciativa individual dela e da mãe, depois se tornou um coletivo e hoje é um instituto formalizado.
“Em 2018, procurei um amigo que é professor na UEL com a intenção de criar um cursinho pré-vestibular comunitário no Vista Bela. A princípio pedi apenas um projetor, mas ele se sensibilizou com a ideia e viabilizou com a universidade a estrutura para este projeto”, recorda Lua.
Segundo ela, um cursinho comunitário com professores que entendem a realidade da favela faz toda a diferença para os estudantes, pois apesar de muitos alunos de colégios públicos na região central de Londrina serem de comunidades, a conversa do professor com eles é diferente da conversa com alunos das favelas.
“Nas escolas do Centro, o professor do colégio público tem uma expectativa maior em relação ao aluno periférico do que com o aluno do ensino público que está inserido no território vulnerável”, avalia Lua.
Ela recorda que a pandemia comprometeu o funcionamento do cursinho, pois a prioridade passou a ser “manter as pessoas vivas”. “Na pandemia, nosso foco foi a sobrevivência e o resguardo do mínimo para as pessoas ficarem em segurança.”
A coordenadora da CUFA explica que apesar de ter água, luz e asfalto, o Vista Bela era considerado favela porque não contava com aparelhos públicos quando foi criado. No início do bairro, em 2013, foram deslocadas para lá pessoas que moravam em ocupações e famílias que estavam na fila da casa própria da Companhia de Habitação (Cohab).
“Tudo que a gente conhecia de público era a polícia e a estrutura da repressão”, diz Lua, assinalando que o trabalho de aproximação da comunidade realizado hoje pela Polícia Militar em Londrina é recente.
Com o projeto do cursinho pré-vestibular comunitário suspenso por conta da pandemia, Lua iniciou um acolhimento de 49 famílias de pessoas acamadas, arrecadando fraldas, cama hospitalar, muletas, medicamentos e alimentos.
Lua, então, expandiu seu atendimento para as famílias que viviam nas ocupações das zonas Norte e Oeste de Londrina. “Mas não adianta dar comida se não há saneamento.” A educadora social lembra que o objetivo central da CUFA é trabalhar as potencialidades das pessoas para gerar autonomia econômica.

Do óleo ao sabão; das roupas doadas ao ‘Bazar da Quebrada’
“Eu e minha mãe começamos a juntar óleo para fazer sabão. Eu já tinha o conhecimento porque a saboaria artesanal complementava minha renda há seis anos. Então, como eu conseguia comprar a matéria-prima por um preço mais acessível, nós começamos a produzir sabão e água sanitária.”
“Divulgamos entre os amigos e em 2020 passamos a arrecadar alimentos e a doar os itens de higiene com 80 cestas básicas por semana”, recorda Lua. Segundo ela, o volume de óleo doado cresceu e ela propôs uma parceria com a comunidade de recicladores do Parque Felicidade.
“Ao invés de levar uma cesta básica por mês, eu levava uma cesta de legumes por semana e os trabalhadores da reciclagem me repassavam as garrafas pet que eu precisava para armazenar o óleo arrecadado para a fabricação do sabão”, conta Lua, que, nesta troca, percebeu a oportunidade de gerar renda para aquelas famílias.
“Em troca do óleo, nós realizamos oficinas de saboaria artesanal nas comunidades e ensinamos a precificar o sabão. Algumas dessas mulheres ainda vendem sabão até hoje”, comemora.
Outra ação do Conexões Londrina durante a pandemia foram os bazares de roupas. “Percebemos um fluxo de roupas muito grande nas doações e criamos o ‘bazar da quebrada’, a partir de um método próprio de triagem”, comenta Lua.
Segundo ela, o método era simples: “O que não serve para mim, não serve para ninguém”. Então, a partir das roupas descartadas, foram produzidas máscaras com o reaproveitamento do tecido. “Era quase uma loja de departamento na quebrada porque além das roupas e calçados, tinha brinquedo, livros.”
‘A quebrada é sinônimo de potência e não de carência’
A partir dessa iniciativa, as potencialidades locais foram sendo descobertas, e novos empreendedores foram descobertos nos territórios vulneráveis. Mas dessa vez, com a orientação da CUFA, essas pessoas passaram a divulgar seus trabalhos nas redes sociais e a vender para fora das próprias comunidades.
“Empreender é uma lógica liberal, mas nós, periféricos, temos isso como característica de vida”, alerta Lua, explicando que por onde a CUFA passa ela leva qualidade de vida para a comunidade. “A quebrada é sinônimo de potência e não de carência.”
A coordenadora alerta para o aumento da desigualdade social no pós-pandemia. Hoje, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), são 14,7 milhões de brasileiros vivendo nas favelas, que representam o quarto maior Produto Interno Bruto (PIB) do País, atrás apenas de três estados.
“Os desafios são enormes, porque o IBGE não consegue categorizar as regiões onde há favelas. Os números do Censo não refletem a realidade porque muitas mulheres, que são chefes de família, não responderam ao censo justamente porque estavam trabalhando quando recenseador passou.”
Para Lua, a solução está em o poder público olhar de maneira mais humanizada para essa população periférica e criar oportunidades de emprego e renda, educação e saúde dentro das comunidades. “É a ruptura do pensamento de que quem vive na favela não pode criar expectativas. Não somos só força de trabalho.”
Gestão do agora, humanização e busca de novos caminhos dentro dos territórios vulneráveis é o começo para se combater a desigualdade social, que atravessa diversas políticas públicas. “É a capacidade de se abrir para ver as potencialidades do outro.”
“É isso que a CUFA faz, potencializa líderes. Fazemos com que as pessoas acreditem nelas mesmas. Fomentamos a centelha de inquietação que existe na população periférica. Não conseguimos tocar todo mundo, mas qualquer pessoa que a gente toque faz diferença para a quebrada.”
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