Segunda abolição começa com uma mudança no nosso jeito de pensar’, diz autor de Escravidão a adolescentes privados de liberdade

Cecília França
Imagem em destaque: Encontro virtual do escritor Laurentino Gomes com adolescentes dos Cense do Paraná/Reprodução

O Clube da Leitura dos Centros de Socioeducação (Cense) do Paraná recebeu, nesta quinta-feira, 23 de novembro, o jornalista e escritor Laurentino Gomes, autor das trilogias ‘Escravidão’ e 1808, 1822 e 1889. Laurentino interagiu com adolescentes internos dos 19 Censes do Estado durante duas horas, de forma virtual, sobre a versão juvenil do seu livro que aborda a escravização de pessoas negras no Brasil.

Participaram do encontro, mediado pela assistente social do Escritório Regional Socioeducativo de Londrina, Andressa Cândido, o Desembargador do TJPR, Ruy Muggiati, a juíza de direito da Vara de Sucessões de Curitiba, Júlia de Araújo Silva, e docentes dos cursos de zootecnia e agronomia e psicologia da UEL.

A professora de Língua Portuguesa do Cense de Umuarama, Ana Paula Ferreira da Silva, falou na abertura do encontro representando todos os docentes das unidades.

“O tema da escravidão é recorrente nos Cense a todo momento, porque a questão da exclusão, os nossos meninos são partícipes dessa situação”, afirma. Segundo a docente, o livro Escravidão foi trabalhado pelas disciplinas de história e língua portuguesa, deixando claro para os adolescentes a importância de entender a história para compreender o mundo que vivemos.

“Há 18 anos, quando entrei no Cense, a gente não tinha nem internet, nem computador. A gente foi acompanhando e adaptando a unidade. Vale a pena, nós temos objetivos a atingir. E a leitura não é só de livros, é de mundo. Temos que formar cidadãos conscientes das escolhas que eles podem fazer”, finaliza.

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Laurentino contou aos e às adolescentes a motivação para se tornar jornalista e escritor, como se deu a pesquisa para seus livros sobre a escravidão e defendeu a importância de entendermos que a sociedade de hoje carrega as cicatrizes desse período.

“Eu sou um ser humano profundamente transformado pelos livros e pela leitura. Minha mãe estudou só até o 1o ano e meu pai até o 5o. Mas, curiosamente, esse casal que tinha tido pouca oportunidade de estudar valorizava muito o estudo e a leitura, tinha como meta que os quatro filhos fizessem faculdade, e conseguiram”, contou o escritor.

Natural de Maringá (PR), Laurentino disse que se mudou para o distrito de Paiçandu na infância e, de lá, traz as primeiras memórias da leitura.

“Não tinha biblioteca, não tinha livraria, meu pai emprestava livros do pároco de Paiçandu. A memória mais remota que eu tenho de minha ligação com os livros e com a história é quando eu ia levar os livros para ele na roça e ele me contava o que estava lendo, debaixo de um pé de café. Acho que nasceu ali a vocação do escritor e do jornalista”.

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“É estudando história que entendemos quem somos hoje”

Laurentino recebeu diversas perguntas dos adolescentes em relação a preconceito e os efeitos do racismo no dia a dia.  “A escravidão atual para você seria um negro não poder andar livremente na rua sem ser confundido como bandido?”, perguntou um adolescente.

“Isso é uma herança da escravidão, uma coisa até de natureza psicológica. Às vezes um homem, uma mulher branca andando na rua, vê um garoto negro, muda de lado. Às vezes a pessoa faz sem se dar conta, mas temos que ter a consciência do que está fazendo. É um grupo que se julga com mais direitos, mas também mais civilizado que o outro, menos perigoso. Na prática não é isso. A maneira de lidar com a pessoa embute comportamentos da época da escravidão”, respondeu o escritor.

Ele defende que as condições de vida da população negra ainda hoje refletem a escravidão (como acesso mais dificultado aos estudos, a postos de trabalho mais bem remunerados, a moradia…), por isso, faz-se necessária uma segunda abolição – desta vez, efetiva.

“A segunda abolição começa com uma mudança no nosso jeito de pensar”, expôs.

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Outro adolescente questionou “Por que falar do negro da escravidão e não do que ele tem de melhor?”. Laurentino argumentou que não podemos nos furtar de encarar um período histórico que nos forjou como sociedade e reflete ainda hoje.

“São da África o sofrimento e a dor da escravidão, mas também o sorriso. A música, a beleza do Brasil têm muito a ver com a África. Mas seria um processo de autoengano meu falar só da beleza e fingir que não aconteceu a escravidão”.

Em resposta a um docente, que questionou se ele havia reparado na predominância de negros entre os adolescentes, Laurentino confirmou e reiterou o alerta para que discutamos os reflexos da escravidão.

“Estou falando do Paraná, que tem uma população proporcionalmente mais branca que a da Bahia, por exemplo, mas me chama a atenção, sim, que a maior parte dos garotos tenha a cor da pele mais escura que a média da população. Isso só confirma o que eu falei”.

Clube da Leitura é sinal de esperança

Laurentino Gomes disse aos e às adolescentes que também tinha ideias pré concebidas sobre a falsa democracia racial no Brasil. 

“Se o Brasil é uma democracia racial porque a gente vê tanta desigualdade? Por que pobreza virou sinônimo de negritude? Isso é uma coisa que desconstruí ao longo da minha pesquisa. Entrei imbuído dessas ideias de que a escravidão no Brasil foi mais boazinha, quando eu diria que a gente joga o problema para debaixo do tapete”.

O escritor, porém, percebe mudanças importantes na sociedade.

“Na minha juventude era aceitável fazer piada com pessoas negras, homossexuais, estrangeiros. O comportamento está mudando e isso é muito bom. É preciso não só leis para mudar as coisas, mas o comportamento de cada um de nós”.

Para ele, iniciativas como o Clube da Leitura dos Cense dão esperança no futuro.

“Fico absolutamente encantado por saber que vocês estão sendo chamados para participar de uma discussão madura sobre as condições do Brasil. O simples fato de serem convidados, primeiro a ler, depois a participar de um bate-papo com o escritor, a discutir, perguntar, a mim parece um grande sinal de esperança. Eu fico muito animado ao ver isso.

Ele acrescenta que a responsabilidade pelo fim do racismo é das pessoas brancas.

“Racismo no Brasil é problema dos brancos. Foram eles que criaram o racismo. É papel do branco levar a discussão para a sua bolha e eu estou fazendo isso com meus livros”, afirmou.

Clube da Leitura foi premiado pelo CNJ

O Clube da Leitura dos Cense nasceu em Londrina, no Cense 2, durante a pandemia, quando as portas das unidades foram fechadas para o mundo externo. Em 2021, a iniciativa recebeu o prêmio “Prioridade Absoluta”, do Conselho Nacional de Justiça.

Daqui, espalhou-se e passou a envolver todo o Estado. Idealizadora da iniciativa, Andressa Cândido comemora o sucesso do encontro com Laurentino Gomes e exalta a importância do Clube.

“Eu achei super bonito o que o Laurentino falou, que o Clubinho de Leitura é a esperança, a expectativa de um mundo melhor. Mas o Clube de Leitura da Socieducação do Paraná, para mim, é um encontro nunca imaginado antes. A gente conseguir se conectar a todas as unidades, em um espaço construído para tratarmos dos temas atuais e que intrinsicamente têm correlações com os atos infracionais dos meninos. É uma desconstrução da lógica do resto, do pior, do que sobrar para os nossos adolescentes. É estarmos com os melhores livros, com os maiores escritores e referências de vida. É dar voz e vez pra molecada, é empoderar nosso sistema socioeducativo. É sairmos da invisibilidade junto dos adolescentes, é abrir espaço para a sociedade, para o mundo conhecer quem somos e nossos adolescentes, fora do ato infracional que os estigma até hoje. É um espaço de horizontalidade. O clube de leitura é o nosso melhor, porque nós estamos juntos”, declara.

Desde a criação até o fim deste ano, o Clube já terá proporcionado a leitura de 29 livros pelos adolescentes internos nos Cense.