Casos como a agressão a Marinho e a imobilização de homem negro em shopping têm o racismo como pano de fundo; ativistas cobram atitude das pessoas brancas

Cecília França

Imagem: Prints de vídeos de abordagem a homem negro em shopping e de prisão de outro homem no RS

No último fim de semana viralizou nas redes o vídeo de um homem negro sendo imobilizado pela Polícia Militar dentro de um shopping em Londrina. O portal Tem Londrina, um dos poucos a repercutir a ação, que classificou como truculenta, recebeu diversos comentários em sua publicação nas redes sociais, muitos elogiando a PM, outros tantos questionando o uso da força.

“Se fosse um outro indivíduo branco de classe média a alta, na mesma condição do mesmo, qual seria a abordagem, meus caros alegas?”, questionou um internauta. “Bateram porque era pobre, se fosse branco e rico iam carregar no colo”, ironizou outro. “A polícia militar é treinada para ver o outro como inimigo, mas enxerga cor e classe social. O nome disso é racismo”, escreveu um terceiro.

Poucas semanas atrás, uma agressão física ao ex-jogador Marinho havia levantado questionamentos semelhantes. Aos 68 anos, o ex-atleta do LEC e do Flamengo, que sofreu um Acidente Vascular Cerebral (AVC) há pouco tempo, em estado de confusão mental, tentou adentrar em uma residência que não era a sua. Foi, então, “confundido” com ladrão, hostilizado por moradores e agredido por um homem, sofrendo, inclusive, uma fratura no maxilar.

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“Minha pergunta é se fosse um idoso branco”, questionou uma internauta na publicação do Tem Londrina sobre o caso. “Boa pergunta! Talvez, alguém iria convidá-lo para tomar um café”, respondeu outro.

O presidente do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial (CMPIR), Welisson Vieira de Aguiar, conta que tomou conhecimento da ação da PM no shopping por meio da Comissão de Promoção de Igualdade Racial e Minorias da OAB/Londrina, da qual também faz parte. Para ele, a ação seria diferente com uma pessoa branca.

“É possível notar que a abordagem e procedimentos adotados acabam esbarrando na questão racial, pois caso tal abordagem tivesse ocorrido com uma pessoa que não é negra, certamente a forma e encaminhamento não seriam os mesmos”, constata. Para ela e outras ativistas ouvidas pela Rede Lume, situações como essas refletem o racismo estrutural, porém, constatar isso não pode ser desculpa para comodismo, especialmente por parte das pessoas brancas.

“Muitas vezes, colocar no saldo do racismo estrutural faz com que não se reconheça a necessidade de tomar medidas mais contundentes de combate ao racismo, principalmente um trabalho educacional mais amplo e consistente que principalmente consiga atingir as pessoas na fase inicial de formação”, avalia.

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A mestre em sociologia Beatriz Batista Silva, integrante do CMPIR, ativista do Movimento Negro Unificado do Paraná (MNU-PR), do coletivo Quilombo PCD e do Coletivo Regional Plenária de Mulheres Negras do Norte PR, acrescenta: “Principalmente a população branca do país precisa sair do lugar de que é uma estrutura e não se tem o que fazer, porque tem. A estrutura é um mecanismo sustentado pelas pessoas, são pensamentos reproduzidos por pessoas. A gente precisa avançar para além da perspectiva de que existe o racismo estrutural e não temos como mudar. Precisamos nos posicionar, não somente quem está na condição de ativismo”.

Para ela, ferramentas como a Lei 10.639/2003 são essenciais para a formação antirracista desde o início do processo educacional.

“No Paraná e em Londrina a gente tem um trabalho integrado com a prefeitura, a universidade e outras secretarias que estão nessa linha de frente do processo educacional para desconstruir esses preconceitos que estão enraizados”, relata.

Trabalho ‘robusto’ contra o racismo

A Gestora de Promoção da Igualdade Racial, Fátima Beraldo, diz que o movimento negro em Londrina vem denunciando há tempos para as autoridades a violência sofrida pela população negra na cidade. “Principalmente a juventude negra que vive na região periférica”, explica.

“Há um genocídio de jovens negros em curso nesse país e, por aqui, não é diferente. Mas, só sai na mídia, só repercute, quando é uma celebridade como o caso do jogador Marinho ou como o caso do jovem negro, ocorrido no último sábado, que pela violência das agressões em plena luz do dia, na frente de uma multidão, não houve como esconder. Do contrário, só mesmo os familiares que perdem, porque é só mais um corpo preto tombado no meio da rua”, avalia.

Para Fátima, o debate para superação do racismo estrutural e seus reflexos no cotidiano precisa ser feito com urgência e com o comprometimento das autoridades responsáveis por formular e fiscalizar as política públicas.

“É necessário pautar a questão e fazer o debate de forma muito robusta e responsável. As autoridades constituídas precisam reconhecer a dimensão do racismo e o modo violento como ele atinge a pessoa negra na sociedade londrinense. É urgente e necessário pensar a formulação de políticas públicas e outras medidas de combate às desigualdades raciais na perspectiva de, também, combater a violência e demais assimetrias que afetam a população negra em Londrina”.

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