Por Vinícius Fonseca*
Quando escrevo aqui que precisamos estar alertas e ser combativos não é brincadeira. O dia a dia mostra que não é brincadeira. Eu estava pronto para ter um fim de semana tranquilo e então fiquei sabendo do caso que aconteceu em União da Vitória, aqui mesmo no Paraná.
Três jovens de 17 anos estão sendo investigados pela polícia civil por terem praticado bullyng contra um jovem de 20 anos, que estuda na mesma classe e tem síndrome de down. A vítima, obviamente, em razão de sua condição não percebeu que estava sendo vítima. Já seus agressores, em um rompante adolescente ou munidos da certeza da impunidade, postaram o vídeo em uma rede social.
Assistir ao vídeo e ler a matéria me fez lembrar de vários momentos ruins que passei na escola. Sim, mesmo eu sabendo me defender muito bem dos ataques que sofria, fui vítima, mas pouparei a todos de falar do meu já superado passado. Quero focar é no caso em si.
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A mãe do adolescente com down teve conhecimento do vídeo, fez o boletim de ocorrência e procurou a escola para elucidar o caso. A escola, por sua vez, marcou uma reunião com os pais dos agressores e a mãe da pessoa com deficiência (PCD).
Segundo a matéria divulgada pelo G1, a mãe da vítima disse que alguns dos responsáveis pelos agressores tentaram minimizar o caso dizendo que seus filhos chamaram o PCD de “presente especial”. Com todo respeito a esses pais, mas fica fácil perceber o motivo de seus filhos terem um comportamento tão ruim.
Eu sei que a tendência de um pai e uma mãe é proteger seu filho, mas educar para a vida em sociedade é a melhor proteção que se pode dar a alguém e não tentar diminuir seus erros. O que esses três adolescentes fizeram foi cometer um crime contra alguém que sequer era capaz de reconhecer a atrocidade pela qual estava passando.
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Espero de coração que vocês possam conversar com seus filhos e que eles aprendam com o erro que cometeram. Acredito que sempre há como extrair o melhor de cada ser humano, por mais equívocos que cometa ao longo da vida. No caso dos três, há uma longa vida pela frente e tempo para mudar.
Tem outra coisa que chama a atenção no conteúdo da matéria, a posição da Secretaria de Educação do Estado do Paraná, que classificou o ato como bullying. Até aí, tudo bem, embora eu chame de crime contra a pessoa com deficiência, mas o que mais me chamou a atenção é que o órgão diz que o colégio tem duas salas de recursos multifuncionais, que segundo ele, conta com equipamentos e recursos voltados ao público-alvo da educação especial.
Um posicionamento, na minha opinião, nada inclusivo, mas ao mesmo tempo nada surpreendente vindo do Estado que quer militarizar os colégios. Eu vou tentar explicar a razão por trás do meu pensamento.
Acredito que a escola avaliou se o aluno com down tinha ou não condições de estar no ambiente em que estava. A partir deste raciocínio saber que existe sala adequada para este aluno ou não passa a ser irrelevante, afinal, a sala é para melhor atendê-lo ou para apartá-lo dos estudantes sem deficiência?
Parece-me correto supor que a sala serve para atender alunos com deficiência e não os separar dos demais. Uma educação inclusiva perpassa pelo combate as barreiras, sejam físicas, pedagógicas ou atitudinais.
Quanto ao resultado do caso não há muito o que falar, espero que os envolvidos sejam devidamente punidos, aprendam com seus erros e que este caso sirva de alerta aos pais, tanto de PCDs quanto de pessoas sem deficiência: fiquem atentos aos seus filhos. A educação para uma sociedade melhor começa em casa.
*Vinícius Fonseca é pessoa com deficiência, jornalista, tecnólogo em gestão de Recursos Humanos com especialização em assessoria em Comunicação e M.B.A. em Gestão de pessoas. Também é escritor de poesias e contos, além de um eterno curioso.
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