‘Comunicação UEL contra o Assédio’ é tema de roda de conversa nesta segunda

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Roda acontece em meio a protestos contra possível contratação de professor suspeito de assediar alunas

Mariana Guerin

Estudantes do curso de Jornalismo da Universidade Estadual de Londrina (UEL) realizam na noite desta segunda, às 19h15, uma roda de conversa intitulada “Comunicação UEL Contra o Assédio” para discutir o tema que rondou os corredores do Departamento de Comunicação da universidade na última semana: a possível contratação de um professor que foi aprovado em teste seletivo, mas é suspeito de ter cometido assédio sexual contra diversas alunas na instituição e em outras da cidade.

Segundo uma das estudantes que fazem parte da organização da roda de conversa, mas que preferiu não se identificar por medo de retaliações do docente e da universidade, o objetivo do evento é mostrar a importância de debater sobre assédio. “Vamos ter algumas palestrantes que vão falar sobre a importância de procurar ajuda e como fazer isso. É para situar todo mundo e falar: ‘Vocês não estão sozinhas, a gente não vai deixar acontecer nada e, se for possível, a gente vai evitar a contratação dele’.”

A aluna reforça que a manifestação estudantil apoia não só as estudantes que teriam aula com esse professor este ano como também as que tiveram aula com ele no passado.

Serão palestrantes no evento, que será realizado via Google Meet, a assistente social no Sebec da UEL, Tatiane Monteiro, que é mestra em Serviço Social e Política Social, a advogada Isabella Alonso, mestranda em Comunicação e discente de Jornalismo na UEL, a cientista social Franciele Rodrigues, doutoranda em Sociologia e discente de Jornalismo na UEL, e a professora doutora Martha Ramirez Galvez, do Departamento de Ciências Sociais da UEL, que atua na Comissão de Prevenção à Violência Sexual e de Gênero do Centro de Letras e Ciências Humanas da UEL. A mediação será conduzida pela professora Márcia Neme Buzzalaf, do Departamento de Comunicação da UEL.

Alunos querem ser ouvidos pela UEL sobre assédio

Ainda conforme a aluna de Jornalismo, “a roda é uma manifestação dos alunos, que querem ser ouvidos, que querem que o departamento veja que nós não estamos satisfeitos com a contratação”. “Eu não posso informar exatamente o número de denúncias e outros casos de assédio, porque eu confesso que fico meio insegura e com medo de acabar me comprometendo porque é um assunto bem delicado”, diz.

“A gente recebeu muitos relatos depois que começamos a fazer essa campanha. Nós fizemos uma imagem ‘Jornalismo é contra o assédio’ e estamos usando essa imagem nas aulas e nas redes sociais”, informa a estudante, que pessoalmente é contra a contratação do professor. “Eu acho até um absurdo a gente ter que discutir sobre isso em 2021. Eu acho sim que esse movimento estudantil pode reverter a contratação dele. Eu acho que quando a gente coloca a cara a tapa para discutir um assunto que é muito importante, a gente consegue reverter muita coisa.”

“Na minha opinião, é impossível ele conseguir dar uma aula sabendo que o curso inteiro desaprova a contratação dele. Não faz sentido ele dar aula onde ele não é bem-vindo, então eu acho que a gente pode acabar revertendo sim”, prevê a aluna.

Levante da Juventude e Sindicato dos Jornalistas se posicionam

Na semana passada, a polêmica chegou ao Levante Popular da Juventude do Paraná e ao Sindicato dos Jornalistas do Norte do Paraná (Sindijor Norte-PR), que também se manifestaram contra a presença do docente na instituição.

Em nota publicada na página do movimento no Instagram, os estudantes questionam a contratação e afirmam que não deixarão o machismo passar. “Professor do departamento de comunicação da Universidade Estadual de Londrina que já recebeu diversas denúncias de assédio sexual contra alunas tem a possibilidade de voltar a dar aulas para a graduação. É um absurdo que a universidade permita abusadores em sala de aula. Não aceitaremos que mais nenhuma mulher passe por isso! É de grande responsabilidade do departamento a não aceitação desse indivíduo”, diz o comunicado.

Já o sindicato publicou nota de opinião, assinada pelo diretor de fiscalização Willian Casagrande Fusaro, informando que os estudantes de jornalismo da UEL estão em luta contra o assédio sexual. “Depois de descobrirem que teriam aulas com alguém, repetidas vezes suspeito de assédio sexual contra estudantes, os calouros do segundo ano buscaram providências contra a convocação. Alguns casos de assédio, inclusive, teriam sido presenciados por outros alunos e ex-estudantes da instituição. O colegiado do curso foi convocado e, apesar das estruturas burocráticas que impedem (e foram feitas para isso, pois são fruto de uma sociedade burguesa e patriarcal) o curso óbvio dos casos de denúncias na universidade, decidiu por repudiar a convocação do assediador machista”, diz o texto.

Fusaro ressalta a coragem dos estudantes em repudiar a contratação do profissional, que não teve a identidade divulgada. “Uma lufada necessária de ar fresco e limpo que só a organização popular traz. A luta é orgânica e as redes de solidariedades dos trabalhadores e oprimidos, imensas. Enquanto a universidade faz andar, ainda que timidamente, mecanismos para lidar com esses casos de abuso de poder, a organização estudantil toma à frente e escreve a história com sua própria pena – ainda que a duras penas, organizando-se por mensagens, chamadas de vídeo e ligações, como a pandemia nos obriga há mais de um ano.”

“À revelia da frieza da burocracia, há sangue quente demais pulsando nas veias dos jovens para que casos como esse continuem passando impunemente. Já passaram, mas, definitivamente, não passarão. Todo apoio aos estudantes de Jornalismo contra o abusador!”, completa o texto, destacando que o movimento recebeu apoio de estudantes de outros cursos e instituições, como o Centro Acadêmico de História, que também emitiu nota sobre o caso.”

UEL não irá se manifestar

À Rede Lume, a assessoria de comunicação da UEL informou que a universidade não irá se manifestar sobre o movimento dos estudantes porque não há denúncia formalizada contra o professor na instituição.

Uma estudante do primeiro semestre de Jornalismo da UEL que não quis se identificar se mostrou preocupada com a denúncia dos colegas, pois poderá ter aulas com este professor no segundo semestre. “Eu sei de algumas pessoas que passaram por essa situação. Nós simplesmente esperamos que isso possa ser resolvido, pois nenhum de nós está contente ou sentindo-se confortável para ter aula com um professor que possui este tipo de histórico.”

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