‘Não consegui pensar que ele estava morto’, lembra amigo de Gabriel Sartori

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Ato em memória e por justiça pelo jovem morto por um policial em 2017 aconteceu ontem com a presença de amigos e familiares

Cecília França

No dia 15 de junho de 2017, João Vitor de Oliveira, 22, conversava com Gabriel Sartori em frente à quadra do Colégio Estadual Professora Maria José Aguilera, no Conjunto Cafezal 4, em Londrina. Eles e outro amigo que os acompanhava foram abordados pelo policial militar Bruno Zangirolami e o resultado é conhecido: o PM disparou um tiro que matou Gabriel. Ontem, dia em que o adolescente completaria 21 anos, Oliveira participou de uma manifestação promovida por familiares e pelo Movimento Autônomo Popular (MAP) em frente ao colégio.

“Eu só consegui escutar o tiro. Na hora eu não consegui reagir de outra forma a não ser correr, sabe. E no momento que aquilo aconteceu parece que tudo ensurdeceu, tudo ficou em silêncio. O único barulho que eu conseguia ouvir era do tiro”, relembra o rapaz. Quando chegou na esquina, Oliveira olhou para trás e viu o amigo caído, mas não teve consciência da situação.

“Não sei se foi meu cérebro tentando me enganar, mas eu não consegui pensar que ele estava morto. Eu pensei ‘ah, ele deve ter tropeçado em alguma coisa e caído e o máximo que vai acontecer é ele apanhar do policial, o cachorro vai morder ele, alguma coisa assim, e a mãe dele vai ficar sabendo, ele vai levar uma bronca e a gente vai rir disso outro dia que a gente se ver'”, lembra.

Mas os dois nunca mais se viram. “Fiquei uns dois, três dias, até mais, tentando entender o que aconteceu. Foi bem difícil pra mim”, completa Oliveira. Para a mãe de Gabriel, Cristiane Sartori, a data do aniversário do filho é ainda mais triste para ela.

“A data de aniversário dele é um pouquinho mais triste, porque você quer comemorar com a pessoa e agora eu não tenho mais. Cadê os parabéns, o bolo, os presentes…Eu sou muito grata a esses meninos por eles estarem sempre apoiando e para mim se torna um pouquinho de felicidade”, diz ela sobre a manifestação. Após quase 4 anos, o júri popular do PM ainda não foi agendado, uma frustração para Cristiane e para os amigos de Gabriel.

Assista vídeo da manifestação no Instagram do MAP.

Crédito de imagens e edição: Zé Pulinho

“Me sinto frustrada com um país que você luta tanto, que eu admiro tanto, e que não tem uma justiça decente. A gente já tem que sofrer a dor da perda de um filho, que é insuportável, aí você tem a dor de não ter uma resposta”, lamenta a mãe. Além do julgamento, Cristiane se mostra inconformada com a ausência de posicionamento por parte da Polícia Militar.

“Além desse júri popular, que eu gostaria muito (que marcasse) essa data, eu quero também a parte da Corporação, que também não se manifesta. A parte do governo, essa parte da PM, de não se manifestar, de não falar nada. Não sei como está o julgamento interno, a gente não tem respaldo, ninguém fala nada, ele (o policial) continua trabalhando normal, como se nada tivesse acontecido”, argumenta a mãe.

“O mínimo que podia acontecer é prisão para esse policial, porque a gente fica sofrendo aqui, os amigos, a família, as pessoas do bairro que conheciam o Gabriel…A gente espera que a justiça seja feita não só no caso dele, mas em todos os casos que acontecem todos os dias aí no Brasil em que crianças e adolescentes morrem na mão de policiais corruptos, é injusto isso”, complementa Oliveira.

“Vocês já viram alguma vez acontecer em bairro rico? Eu nunca vi, mano”, diz Lucas Santos, do MAP, em discurso aos manifestantes. À Lume ele explica porque o coletivo se mobilizou para a manifestação de ontem.

“Não pode passar batido que um policial, treinado pelo Estado, matou um menino desarmado, sem antecedentes criminais, sem qualquer tipo de chance de reação, uma covardia. Apesar de ter sido colocado como dolo eventual, assume o risco de tirar a vida das pessoas”, afirma. Segundo a investigação, o PM disparou para o chão e a bala ricocheteou em Gabriel.

Santos recorda que não estava em Londrina quando recebeu a notícia da morte do jovem, que morava no mesmo bairro. “Foi bem chocante. A gente que é militante já conhecia a questão da violência policial, mas quando aconteceu debaixo do nosso nariz foi muito dolorido”, relembra.

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