A sagrada família tarja preta: as festas de fim de ano e a tormenta de encontrar certos parentes
Em nome do pai, do filho do espírito santo e da sagrada família tradicional…
Amém???
Não dá pra dizer amém em nome da hipocrisia que habita os interiores das relações da maioria das famílias consanguíneas não escolhidas, aquelas que nascemos e vivemos, mesmo sem atender às expectativas cis-hetero-normativas que essas famílias jogam em nossas costas, como sendo o correto, o belo, o ideal, das suas felicidades estampadas nas caixas de tarjas pretas, que sustentam os pilares da moral e dos bons costumes, que arrastam feitos pedras, penitentes, infelizes, medicamentalizados ou iludidos mesmo.
Um LGBTIA+ ou Queer, nestas famílias (claro que existem exceções), quando não são expulsos, viram motivos de comentários torpes, preconceitos escondidos, das conversas à meia boca, nos olhares de julgamento, comentários de desprezo e vergonha declarada de diversas maneiras… e mesmo quando essas famílias dizem aceitar essa aberração, esse monstro que “deus” colocou no caminho delas – como nos consideram – nunca nos perguntam sobre nossos namorados/namoradas. É como se fôssemos eunucos, castos, sem vida afetiva e sexual. Aceitam-nos – quando nos aceitam – desde que não se toque no assunto da nossa sexualidade e afetividade, que os envergonha. Pouco importa como vai seu parceiro/a, como está seu coração, como anda sua relação afetiva, suas dores, seus amores, sua vida… O parceire é algo tolerável, quando o é, porque não tem o que fazer com isso, mas fazem de conta que ele/ela/elu nem existe. Talvez tenham medo de demonstrarem um mínimo de humanidade e solidariedade, e que desta forma estejam incentivando a relação afetiva, apoiando… e quem sabe – imaginam – ao desqualificarem a relação indesejada por eles – por eles, somente – esse amor morre. Será que é isso que passa na cabeça dessas “santas” famílias? É uma forma tão bela o amor que paira nestas honradas famílias, não é mesmo? Um exemplo a ser seguido (leiam com deboche, por gentileza).
Geralmente não rolam convites para batizados, casamentos, velórios, ceias, festinhas, churrasquinhos íntimos – raros são os casos. As evidências são tantas… Um casal hetero pode ter começado a namorar há dois meses um estranho/a/e lá de longe, pois aquele estranho/a/e é convidade para festinha de casamento – ou qualquer outra cerimônia – da tradicional família véu e grinalda, porém o companheiro/a/e do LGBTIA+ e Queer, mesmo que ele já namore há três anos ou mais, essa “honrada família” finge não existir, fecha os olhos, pro escândalo da aberração do afeto do parente. Não convida pra nada, ainda mais pra uma cerimônia de casamento, em que deus abençoa a felicidade do casal e o Estado passa a mão na cabeça dessa relação, por meio do cartório, que sacramenta as alianças. É de doer a bola do saco.
Quem sobra nas relações familiares que aceitam sua relação homoafetiva como ela é? Os amigos, as relações familiares afetivas da família que escolhemos e vamos constituindo para além das obrigações que esses caixotes consanguíneos nos empurra, como as relações privadas da “sagrada família nuclear”.
Não é fácil conviver com isso e essas normatizações e normalizações vão atravessando a vida dos LGBTIA+ e Queer, negando nossas existências plenas, nossas vidas vivíveis. Somos admirados (quando somos, ou fingem admirar) aos olhos dessa família hipocrisia, que posa para a foto de natal – cheia de interesse que é, finge nos admirar pelo nosso trabalho, nossa bondade, humanidade, bom humor, bom gosto, perspicácia, sagacidade e principalmente o saldo bancário… Com as travestis e mulheres transexuais longevas, muitas vezes suas famílias as obrigam a destransicionar para serem aceitas de volta, sendo que, muitas vezes, o retorno é motivado para se tornarem cuidadoras dos pais ou parentes mais idosos…
As mesmas famílias, que negam nossa existência, nunca lembram, ou raramente lembram de perguntar (quando esse assunto não é totalmente censurado por alguns membros):
– E seu namorado/marido/esposa/companheiro/companheira… como ele/ela/elu está? Como está a relação de vocês? É como se não existisse o outro/a/e e essa relação, que devem considerar maldita ou nem consideram coisa alguma, ou pouco importa, ou nada importa, o que importa, a quem? Mas quando um de nós, nessas condições, se afunda na depressão, algumas vezes chegando até mesmo ao suicídio, aí rolam lágrimas e lágrimas de culpa – lágrimas de crocodilo – que é o sentimento com que os cristãos não lidam muito bem. Ah, onde foi que eles erraram???… Será mesmo que não sabem a resposta???…
Essas são as santas famílias tradicionais que zelam pelos bons costumes e honradez. Mas não vá falar de felicidade, que é quase uma ofensa. Antes de rezar nosso último mistério, doloroso, que é mais a cara dessa “família coroa de espinhos”, não esqueça de tomar os tarja preta de cima da cômoda, para uma noite leve e suave de lindos sonhos dourados das normalidades frágeis em que vivem.
Esse texto desabafo é algo que acontece também com vocês? Conhece alguém que passou ou passa por isso?
Boas festas e cuidem-se.
*Régis Moreira, Comunicólogo Social e Gerontólogo, doutor pela ECA (USP) em Ciências da Comunicação, docente do Depto de Comunicação da Universidade Estadual de Londrina (UEL), onde atua como pesquisador na área de comunicação, envelhecimento e gênero. Pesquisador do Observatório Nacional de Políticas Públicas e Educação em Saúde.
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Regis, seu texto é mais que um desabafo: é um convite à necessária reflexão em torno da hipocrisia sustentada pela moral e bons costumes… Precisamos enfrentar estes debates micropoliticamente, também uma via potente de redirecionamento e criação de outros mundos!
Obrigada pela visita, Bárbara.
A descrição do que acontece no meio familiar não escolhido é por vezes dolorida. Seu texto traz um dos fragmentos dessa descrição. É cruel pensar que existem situações de desafetos por não aceitação daquilo que cada um é como essência.