Ato “Parem de nos matar” pretende reunir centenas de mulheres neste sábado, em memória de Thaissa Gabrielly; Ministra das Mulheres, Márcia Lopes, é presença confirmada
Cecília França
No dia 12 de setembro, um grupo de WhatsApp foi criado por duas londrinenses para ecoar um grito de tristeza e indignação. Na tarde do dia anterior, uma sexta-feira, a cidade havia sido nocauteada com a notícia do feminicídio de Thaissa Gabriely de Oliveira Marques, à luz do dia, dentro do local de trabalho dela, uma academia prestes a inaugurar.
Essas mulheres transformaram o desespero em ação criando o grupo “Parem de nos matar”, que hoje, 25 de setembro, já reúne 735 integrantes. A mobilização sairá do virtual para o real neste sábado, dia 26, com um grande ato no Anfiteatro do Zerão, tradicional ponto cultural e de encontro na cidade.
Estão confirmadas as presença da Ministra das Mulheres, Márcia Lopes, e de familiares de Thaissa. Das 14h às 16h, estão previstas falas de pesquisadoras, agentes de segurança e representantes de movimentos sociais, além de atividades de defesa pessoal e apresentações artísticas.
“A violência de gênero produz vítimas todos os dias. O Brasil registra um estupro a cada 6 horas, quatro feminicídios por dia. São números angustiantes que precisam ser combatidos com visão intersetorial, unindo segurança pública, assistência social, saúde e educação. É urgente formarmos uma sociedade sem machismo e misoginia. Queremos todas nós vivas!”, destacam as integrantes do movimento em material divulgado à imprensa.

Homenagens e reflexão
A programação do ato será aberta às 14h pela cantora Heloísa Trida, seguida da fala inicial da organização. Em seguida, o espaço será aberto à Ministra das Mulheres, Márcia Lopes.
Na sequência, uma série de convidadas integra o bloco de reflexão sobre prevenção, direitos e enfrentamento às violências. A cabo Kely Castagnaro, da Patrulha Maria da Penha do 5º BPM da Polícia Militar do Paraná; a socióloga Silvana Aparecida Mariano, fundadora de Néias – Observatório de Feminicídios de Londrina e coordenadora do Laboratório de Estudos de Feminicídios (Lesfem); a assistente social Sueli Galhardi, ex-presidenta do Conselho Municipal dos Direitos das Mulheres (CMDM) e Thayná Camargo, representante da ONG Autimizar.
Familiares de Thaissa Gabriely foram convidados a honrar a memória da jovem com uma homenagem, que também contará com a leitura de uma carta, escrita pelas organizadoras do movimento.
Néias ainda fará ainda a leitura de seu Manifesto Público por Compromissos Efetivos das Candidaturas pelo Fim do Feminicídio. O documento afirma que o enfrentamento à violência contra as mulheres não deve se limitar a respostas penais ou simbólicas e defende políticas de prevenção, proteção, reparação, autonomia econômica e emocional e investimento público.

Artes e defesa
A programação do ato Parem de Nos Matar inclui a atividade prática de defesa pessoal, conduzida pela Escola de Kung Fu de Londrina, com orientações voltadas à proteção e autonomia das mulheres.
No campo artístico, além da abertura de Heloísa Trida, o grupo Camaradinhas, da Regional do Choro, integra a tarde com uma apresentação de choro. Oito alunas do primeiro ano da Escola Municipal de Teatro de Londrina, projeto da FUNCART realizado em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura, apresentam uma cena do espetáculo “Cenas de um Casamento”.
O movimento pretende deixar claro que mulheres não aceitarão mais ficar caladas. Todas têm o direito de viver, trabalhar, estudar e se divertir em segurança. Coletivos, movimentos sociais e todas as pessoas que acreditam nisso estão convidadas a participar da manifestação: “Traga sua água, seu cartaz e seu grito de indignação para construir uma sociedade livre da violência de gênero”, convidam.
Mobilizações não pararam
Na semana seguite ao feminicídio de Thaissa outros grupos já se mobilizaram em pedidos por proteção às mulheres em Londrina e por justiça. Na quarta-feira, 16 de setembro, o Movimento Olga Benário ocupou a porta de saída da prefeitura com faixas em homenagens às mulheres vítimas de violência e cobrança por políticas públicas. Elas ressaltaram que a cidade não conta com delegacia nem acolhimento 24 horas.
Na sexta-feira 18 de setembro foi a vez de outro grupo, composto por familiares da jovem, ocuparem a frente da academia onde ocorreu o feminicídio, na Celso Garcia Cid. Elas pediram justiça e apontaram omissão por parte dos empregadores. Uma das faixas encontra-se até hoje no local (foto abaixo).

Agressor foi denunciado
Thaissa Gabriely de Almeida Marques tinha 21 anos e cursava o último período do curso de nutrição. Ela também pretendia cursar direito. Para ajudar na renda da família, havia acabado de assumir um trabalho como promotora de vendas de uma nova unidade da rede Smart Fit, localizada na Avenida Celso Garcia Cid. Foi ali, em seu local de trabalho, que Gabriel de Andrade passou a observá-la. Na terça-feira da mesma semana em que cometeu o feminicídio, o rapaz já havia tentado se aproximar e Thaissa manifestou seu receio em um áudio enviado a uma amigo.
“Eu fui mostrar para ele a academia, ali. Aí eu peguei e entrei já pensando: ‘Tem câmera, né? Qualquer coisa, espero que o meu gerente esteja olhando’. Aí, fomos. Chegando perto do banheiro, eu falei: ‘Ah, ali são os banheiros e tudo mais, mas você não tem interesse em ver, não, né?’. Aí ele: ‘Não, quero ver os banheiros’. E eu pensando: ‘Não tem câmera’”, disse a jovem em um trecho do áudio. A verdade é que não havia câmera alguma.
Na sexta, Gabriel repetiu a aproximação, pediu para ver o interior da academia novamente e tentou violentá-la sexualmente dentro do barracão deserto. Diante da resistência da jovem, ele a teria esfaqueado mais de 40 vezes.
O Ministério Público do Paraná (MPPR), por meio da 14a Promotoria de Londrina, denunciou Gabriel pelos crimes de tentativa de estupro e feminicídio, com as qualificadoras de meio cruel e recurso que impossibilitou a defesa da vítima. O advogado da família de Thaissa, Mauro Martins, vê a possibilidade de inclusão de outra agravante: a ocultação de cadáver.
“Entendemos que está perfeitamente demonstrada a ocultação de cadáver. A partir do momento que eu sei que você entra uma hora da tarde e sai às cinco, eu cometo o crime por volta das quatro da tarde, sabendo que você ficava sozinha e não ia entrar ninguém, depois, fecho uma porta que sempre ficava aberta. Qual a finalidade? Qual foi a finalidade de fechar a porta? Não tem nenhuma dúvida que foi para ocultar o crime, ocultar o cadáver”, explica Martins.
Para o advogado, a tentativa de ocultação está intimamente associada à premeditação, evidenciada nas tentativas anteriores de aproximação e reconhecimento do local. “Ele visitou a academia por vários dias, conheceu a estrutura internamente. Ele estudou, premeditou, observou”.
A movimentação do acusado pelas ruas foi registrada por câmeras de segurança de comércios próximos, já que a academia não contava com circuito interno.





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