A vida é movimento
Por Beatriz Herkenhoff*
Cresci em sintonia com meu corpo. Corria livremente, brincava de pique, tomava banho de chuva, escorregava na lama com folhas de bananeiras, nadava, virava cambalhotas, subia em árvores, pegava carona nas carroças, dançava, entre tantas outras atividades que me colocavam em contato com a flexibilidade do meu corpo.
A criança é espontânea e livre em seus movimentos. Deixa fluir a potência do seu corpo.
Na fase adulta criei uma disciplina para malhar, cuidar e fortalecer o corpo. Passei a fazer trilhas, caminhar na natureza, viajar, dançar forró, desfilar em Escola de Samba, pular o carnaval de rua.

Foto: Stephen Andrews/Unsplash
Acredito que o corpo é um ponto central da nossa existência, um lugar onde a vida acontece e se manifesta de forma plena e contínua.
Se imprimimos qualidade aos nossos movimentos, fazemos a diferença na forma como nos relacionamos com o mundo.
Mas, ao longo da vida, recebemos mensagens que reprimem a liberdade do corpo, que culpabilizam, acusam, desqualificam a sua beleza.
Mensagens que focam em modelos e padrões impostos pela sociedade, que criam a ditadura da beleza, que geram gordofobia, anorexia e bulimia.
Leia também: Compreender a gordofobia mudou o olhar de Malu Jimenez sobre si
Passamos a ter dificuldades na relação com o corpo. Deixamos de acolher e amar o nosso corpo como ele é. Focamos nos seus limites e defeitos. Entramos numa espiral de rejeição e negação. Ou na compulsão para transformar o nosso corpo.
Sempre tive um corpo saudável, mas aos 67 anos comecei a ter problemas graves de dores nos joelhos. Exigindo uma atenção especial para o meu corpo, para a forma como piso, como coloco o peso nos meus joelhos, entre tantas outras questões.
Provisoriamente, parei de dançar, de malhar, de fazer trilhas. Mas não parei de me movimentar. Estou fazendo fisioterapia intensiva e acredito na cura plena.
A partir de uma certa idade, a sociedade cria um olhar sobre o corpo como se fosse normal sentir dores (a idade do condor), como se não tivesse mais jeito.
Muitos se acomodam, entristecem e não desenvolvem estratégias para lidar com os limites impostos pelo envelhecimento.
Nesse processo de tratamento dos meus joelhos, criei uma consciência corporal e uma intimidade maior com o meu corpo que fala, pede cuidados e atenção.
Mesmo com limitações, coloco-me em movimento, não fico engessada ao diagnóstico. Procuro construir uma história onde eu sou a protagonista, e não a dor.
Estou resgatando as partes saudáveis do meu corpo, identificando as emoções reprimidas que paralisam.
Identificando mecanismos que aproximam o universo emocional do corporal.
Que nosso corpo seja visto como um espaço que interage com o mundo, sem ser julgado ou condenado.
Que possamos entender a potência do corpo como fonte de cura. Acolher as emoções não processadas que geram dor crônica.
Ter disciplina no tratamento. Acreditar na cura. Viver o presente com intensidade, sem a ansiedade gerada pelo medo do futuro.
Procuro nutrir meu corpo e minha alma de coisas que me fazem bem. Resgatar a liberdade de me movimentar com confiança e esperança.
A temática sobre o corpo é ampla e inesgotável. Não podemos ignorar que o corpo é maltratado pela fome, pelo desemprego, por trabalhos pesados, pela carência de moradia.
A ausência de um lugar para dormir, relaxar e repor a energia mina a capacidade do corpo de resistir, lutar e vencer.
Por isso, o corpo não está isolado de um contexto social, econômico e político. A proteção ao corpo e as condições para que ele se coloque em movimento de forma saudável e transformadora é um desafio coletivo e não individual.
Como você está se relacionando com seu corpo? Que outros questionamentos se colocam?
*Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora do livro: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021) e “Legados: Crônicas sobre a vida em qualquer tempo (2022)
A Lume faz jornalismo independente em Londrina e precisa do seu apoio. Curta, compartilhe nosso conteúdo e, quando sobrar uma graninha, fortaleça nossa caminhada pelo PIX (Chave CNPJ: 31.330.750/0001-55). Se preferir contribuir com um valor mensal, participe da nossa campanha no Apoia-se https://apoia.se/lume-se.
You may also like
Relacionado
7 comments
Deixe um comentário Cancelar resposta
Arquivos
- julho 2026
- junho 2026
- novembro 2025
- outubro 2025
- setembro 2025
- agosto 2025
- julho 2025
- junho 2025
- maio 2025
- abril 2025
- março 2025
- fevereiro 2025
- janeiro 2025
- dezembro 2024
- novembro 2024
- outubro 2024
- setembro 2024
- agosto 2024
- julho 2024
- junho 2024
- maio 2024
- abril 2024
- março 2024
- fevereiro 2024
- janeiro 2024
- dezembro 2023
- novembro 2023
- outubro 2023
- setembro 2023
- agosto 2023
- julho 2023
- junho 2023
- maio 2023
- abril 2023
- março 2023
- fevereiro 2023
- janeiro 2023
- dezembro 2022
- novembro 2022
- outubro 2022
- setembro 2022
- agosto 2022
- julho 2022
- junho 2022
- maio 2022
- abril 2022
- março 2022
- fevereiro 2022
- janeiro 2022
- dezembro 2021
- novembro 2021
- outubro 2021
- setembro 2021
- agosto 2021
- julho 2021
- junho 2021
- maio 2021
- abril 2021
- março 2021
- fevereiro 2021
- janeiro 2021
- dezembro 2020
- novembro 2020
- outubro 2020
- setembro 2020
- agosto 2020
- julho 2020
- junho 2020
- maio 2020
- abril 2020
- março 2020
- fevereiro 2020
- janeiro 2020
- dezembro 2019
- novembro 2019
- outubro 2019
- setembro 2019
- agosto 2019
- julho 2019
- junho 2019
- maio 2019
- março 2019
- fevereiro 2019
Calendar
| S | T | Q | Q | S | S | D |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | 2 | |||||
| 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | 9 |
| 10 | 11 | 12 | 13 | 14 | 15 | 16 |
| 17 | 18 | 19 | 20 | 21 | 22 | 23 |
| 24 | 25 | 26 | 27 | 28 | 29 | 30 |
| 31 | ||||||

Excelente texto!
Também achamos!
Corpo é para ser amado, cheio de segredos a serem descobertos, memoriza cada desleixo e devolve saúde a cada investimento
Que reflexão importante nos traz essa crônica “A vida é movimento”! O corpo deveria também, para ser vida, ser movimento sempre, enquanto vivo. Para quem ama a vida com tanto ardor, como a querida cronista Beatriz, o tempo da existência será sempre muito curto. Percebemos os limites que o tempo nos impõe, movimentos que ao longo do tempo a imprecisão só aumenta, precisaríamos descobrir maneiras de envelhecer mais saudáveis, com menos dor, sobretudo aquelas limitantes dos nossos movimentos.
Muito bom! Sim, Bia, é a mais pura verdade, cuidar do corpo é também preparar o cérebro e o espírito para os embates da vida. Não por acaso a máxiam latina de “mens sana in corpore sano.”
O corpo é a versao mais perfeita da nossa Historia. Ele representa como vivemos
Muito boa a reflexão! Às vezes temos pouca intimidade com nosso corpo , pouca flexibilidade e espontaneidade e dificuldade em manifestar nosso carinho pelas pessoas!