Eu fui no Xororó
Eu fui no Xororó, beber água e não achei… É isso mesmo que você leu, não há erro de digitação. Fui no Xororó e foi um chororô. Fui em Santa Teresa e aproveitei para dar uma volta no bairro em que nasci.
O Xororó era uma fonte, perene, de águas cristalinas que desciam por entre as pedras roladas em meio a mata exuberante da Floresta da Tijuca, do quase Silvestre, numa das curvas da sinuosa Almirante Alexandrino. Está seco, depredado, sujo. Até sua placa indicativa foi arrancada. Está pichado, o gradil enferrujado. Foi um chororô!
Tentei a fonte do Silvestre. Não cheguei até ela. Confesso, não me pareceu uma boa ideia. Vi carcaças de carros, que permaneciam abandonados, casas em ruínas… quase um cenário de batalha, Itororó, talvez. Vi, na memória, escorrer por entre os dedos das mãos, os passeios domingueiros que fazia com meu pai até aquele local bucólico, sua fonte, seu córrego, o refrigerante no restaurante que ali havia. Grapette, repetido por algumas vezes durante aquelas manhãs ensolaradas.
Pegávamos o bonde ‘bagageiro’. Era mais emocionante subir acompanhados pelas ‘encomendas’ levadas ao bairro que, à época, sequer tinha um supermercado. Verduras e legumes, leiteiro, aves vivas, tripeiro, o padeiro e sua cesta recheada de pães doces, que já íamos degustando pelo caminho recurvado das pequenas ruas e seus trilhos prateados.
Curvelo, Largo do Guimarães, Vista Alegre, Largo do França, Dois Irmãos e, finalmente, Silvestre. Lá ia o bonde saracoteando em meio a floresta fascinante. Ontem, vi muitas árvores caídas, deslizamentos, muretas arrebentadas e malcuidadas, lixo por todo lado, casas abandonadas…
Parei na Caixa da Mãe D’Água, reservatório do Rio Carioca. Ali pude sorrir novamente avistando a garotada, da comunidade do Guararapes, se esbaldando na ducha que cai sobre as pedras, como curumins tamoios. Uma farra! Como as antigas crianças que habitavam o local, na época da invasão, prestavam uma homenagem ao manancial.
No Guimarães, mais cuidado que outros arredores, o armazém da Fatinha virou farmácia, o açougue do Chicão virou um bar(?), a escola virou pousada, mas, o Cine Santa Teresa está lá, firme e forte! Ainda bem!
Santa está abandonada. As ruas asfaltadas têm tantos buracos que você faz “a escolha de Sofia” em qual é menos pior cair. Nas que o piso é de paralelepípedos não fica muito diferente, com o agravante que uma das pedras, em forma de cubo, podem, soltas, avariar a lataria do carro.
Eu fui ao Xororó, não bebi água, não encontrei a morena que lá deixei, paixão de infância e pré-adolescência. A casa onde morava foi demolida e virou terreno baldio. Costumava vê-la no bairro. Ela não estava lá. Terá voltado para Minas? Minas não há mais… terá mudado? Por onde andará…
Eu fui ao Xororó. Foi um chororô…








Carlos Monteiro é cronista, jornalista, fotógrafo e publicitário carioca. Flamenguista e portolense roxo, mas, acima de tudo, um apaixonado pela Cidade Maravilhosa
LEIA TAMBÉM
Devaneios, um presente
A Lume faz jornalismo independente em Londrina e precisa do seu apoio. Curta, compartilhe nosso conteúdo e, quando sobrar uma graninha, fortaleça nossa caminhada pelo PIX (Chave CNPJ: 31.330.750/0001-55). Se preferir contribuir com um valor mensal, participe da nossa campanha no Apoia-se https://apoia.se/lume-se.
Relacionado
Arquivos
- julho 2026
- junho 2026
- novembro 2025
- outubro 2025
- setembro 2025
- agosto 2025
- julho 2025
- junho 2025
- maio 2025
- abril 2025
- março 2025
- fevereiro 2025
- janeiro 2025
- dezembro 2024
- novembro 2024
- outubro 2024
- setembro 2024
- agosto 2024
- julho 2024
- junho 2024
- maio 2024
- abril 2024
- março 2024
- fevereiro 2024
- janeiro 2024
- dezembro 2023
- novembro 2023
- outubro 2023
- setembro 2023
- agosto 2023
- julho 2023
- junho 2023
- maio 2023
- abril 2023
- março 2023
- fevereiro 2023
- janeiro 2023
- dezembro 2022
- novembro 2022
- outubro 2022
- setembro 2022
- agosto 2022
- julho 2022
- junho 2022
- maio 2022
- abril 2022
- março 2022
- fevereiro 2022
- janeiro 2022
- dezembro 2021
- novembro 2021
- outubro 2021
- setembro 2021
- agosto 2021
- julho 2021
- junho 2021
- maio 2021
- abril 2021
- março 2021
- fevereiro 2021
- janeiro 2021
- dezembro 2020
- novembro 2020
- outubro 2020
- setembro 2020
- agosto 2020
- julho 2020
- junho 2020
- maio 2020
- abril 2020
- março 2020
- fevereiro 2020
- janeiro 2020
- dezembro 2019
- novembro 2019
- outubro 2019
- setembro 2019
- agosto 2019
- julho 2019
- junho 2019
- maio 2019
- março 2019
- fevereiro 2019
Calendar
| S | T | Q | Q | S | S | D |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | 2 | |||||
| 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | 9 |
| 10 | 11 | 12 | 13 | 14 | 15 | 16 |
| 17 | 18 | 19 | 20 | 21 | 22 | 23 |
| 24 | 25 | 26 | 27 | 28 | 29 | 30 |
| 31 | ||||||

Deixe um comentário