Jesus: um perseguido político e filho de uma família nada tradicional
Por Régis Moreira*
Eu queria escrever sobre tantas coisas nesta semana. Pensei em escrever sobre a linguagem neutra e a tentativa de sua proibição. Quis escrever sobre os descalábrios e desgovernos que parecem aliados ao coronavírus, politizando e dificultando as imunizações vindouras, com as vacinas que batem à porta. Pensei em escrever sobre o tal termo de responsabilidade anunciado, sobre angústia, ansiedade… Pensei em escrever sobre os mortos vítima da Covid-19. Quis escrever sobre lgbtqia+fobia, sobre gordofobia ou sobre o desmonte dos cuidados em saúde mental, as ameaças de extinção do SUS. Quis falar do Beto, da Emilly, da Rebecca, do Raul, dos indígenas ameaçados… sobre os genocídios, os golpes, os toma lá dá cá, os feminicídios, as queimadas de nossas florestas, as ameaças de morte, os desmontes das políticas públicas, os fascismos, os neoliberalismos… tudo tão duro, tudo tão pesado pra essa data em que nos encontramos há uma semana do Natal. Para os cristãos e não cristãos, dezembro é um mês em que nos colocamos em revisão, em avaliação, fazendo um balanço de como foi o nosso ano e criando as mais nobres intenções para o ano que se iniciará… Uma espécie de sentimento vai tomando conta da gente, uma solidariedade, um desejo de bem querer, de estar junto dos que amamos, de confraternizarmos mais um ciclo vencido. E esse ano, as festas e manifestações de natal serão tão diferentes… nossa maneira de demonstrar afeto será tão determinada pelos cuidados que o coronavírus implica. Abraçar, dará lugar pro namastê. Aglomerar, dará lugar pra reuniões em vídeo. Estar junto terá outras configurações não presenciais e tecnológicas, que não significarão abandono, nem desamor, mas pelo contrário, incidirá em cuidado e demonstração do mais sincero amor pela vida. A sua vida e a dos outros. E mesmo nas pequenas reuniões, o cuidado constante, para que possamos comemorar outros natais, nos próximos anos, daquela maneira que bem gostamos, abraçados e tudo mundo junto e misturado. Mas por enquanto o momento exige cuidados especiais.
Esses cuidados não significam deixar de amar, significa amar ainda mais, amar além dos formatos que nos era familiar. Não estarmos aglomerados, não significa estarmos em solidão. E se sozinhos estivermos, ou reunidos com poucas pessoas, também não significa que estamos ausentes. O isolamento pode ser rompido de várias maneiras distantes. É possível desconfinarmos pelos aparatos tecnológicos tantos que aprendemos a lidar durante esse ano. Crie um cartão digital. Faça uma gravação de áudio no whatsapp, crie um videozinho, envie pros seus amigos, pros seus familiares. Crie novas formas de comunicação para se fazer presente, para ser presente, sem deixar de estar seguro, sem deixar de amar de fato.
Estamos todos querendo um colo, um carinho, um aconchego diante das durezas que a vida nos apresentou em 2020. Estamos nos sentindo desamparados, de muitas maneiras, sem rumos precisos na política, mas nada abala nosso esperançar em dias melhores. E esse esperançar não é fruto de uma ilusão, mas fruto do desejo que nos move, da utopia que faz alargar os horizontes e vermos que amanhã será um novo dia, acreditarmos que amanhã pode ser melhor, que estamos dispostos a lutar por isso, que queremos um outro mundo possível, em que todas as vidas possam viver em plenitude, em que todas as vidas sejam vivíveis e valoradas.
“Não estarmos aglomerados, não significa estarmos em solidão.”
Uma vacina está por vir. Em alguns lugares do mundo já se iniciou o processo de imunização tão sonhado e desejado por nós. Por aqui, alguns cronogramas de vacinação já se apresentam para 2021. Um sentimento de que o pesadelo está no fim se aproxima, mas não devemos relaxar nesta reta final de cuidado. Fizemos um esforço incomensurável até aqui. Não desistamos no fim.
Por fim, uma reflexão histórica. Uma mulher, grávida de um espírito, foi com seu marido, livre de masculidades tóxicas, pois aceitou essa gravidez nada comum, dar à luz a seu filho, numa manjedoura, num estábulo, entre os animais, que ajudavam a aquecer o rebento, já que esse bebê nasceu no inverno em Belém. A família, nada tradicional, como reza os cidadãos de bem até hoje, tentava participar do recenseamento imposto a todas as crianças recém-nascidas. Mal sabiam que o cadastro era exatamente para encontrar o seu filho, que estava para nascer e exterminá-lo. O rei, considerado “o grande”, o via como problema, por ele ser anunciado como salvador, o rei dos reis. E o tal Herodes não admitiu concorrências ou ameaças.
Acontece que os Reis Magos, sem saber da maldade toda, levou a informação da viagem, que teve como guia a estrela, para conhecerem o tal menino. O rei pediu para que voltassem e dessem notícias sobre o paradeiro da criança. Mas os magos, avisados em sonho sobre o risco de vida que o recém-nascido corria, seguiram viagem e nada disseram ao tal rei. Na fúria insana pelo poder, Herodes ordenou que matassem todas as crianças nascidas naqueles dias, para que no meio dessas, Jesus também fosse eliminado. Mas Maria e José, alertados pelos magos, fugiram para o Egito. Viveram como fugitivos e se esconderam, até a morte do tal rei. Esses reis do Egito são tão comuns em nossas trajetórias. Esses reis frágeis, intitulados como “grandes” matam sem piedade, para manterem-se no poder, são capazes de tudo. Que todas as mensagens do nascimento de Jesus sejam refletidas em suas potencialidades e atualizações aos contextos atuais. Para que sejamos menos hipócritas. E para os que acreditam em Jesus, saibam, que ele foi um marginalizado, desde sempre, e perseguido, até que o mataram aos 33 anos, pelos regimes de poder de sua época. Os regimes de poder talvez tenham mudado um pouco de características e nomenclaturas, porém os sentenciamentos de morte decretado por “reis” da atualidade são tão duros e diversos como aquele dessa história.
Quero aproveitar esta coluna para desejar a todas, a todes e a todos que as comemorações do Natal deste ano sejam reflexivas. Festivas, na medida do cabível em celebrações modestas, em respeito a tantos irmãs e irmãos que foram mortos.
*Régis Moreira, Comunicólogo Social e Gerontólogo, doutor pela ECA (USP) em Ciências da Comunicação, docente do Depto de Comunicação da Universidade Estadual de Londrina (UEL), onde atua como pesquisador na área de comunicação, envelhecimento e gênero. Pesquisador do Observatório Nacional de Políticas Públicas e Educação em Saúde.
You may also like
Relacionado
Arquivos
- julho 2026
- junho 2026
- novembro 2025
- outubro 2025
- setembro 2025
- agosto 2025
- julho 2025
- junho 2025
- maio 2025
- abril 2025
- março 2025
- fevereiro 2025
- janeiro 2025
- dezembro 2024
- novembro 2024
- outubro 2024
- setembro 2024
- agosto 2024
- julho 2024
- junho 2024
- maio 2024
- abril 2024
- março 2024
- fevereiro 2024
- janeiro 2024
- dezembro 2023
- novembro 2023
- outubro 2023
- setembro 2023
- agosto 2023
- julho 2023
- junho 2023
- maio 2023
- abril 2023
- março 2023
- fevereiro 2023
- janeiro 2023
- dezembro 2022
- novembro 2022
- outubro 2022
- setembro 2022
- agosto 2022
- julho 2022
- junho 2022
- maio 2022
- abril 2022
- março 2022
- fevereiro 2022
- janeiro 2022
- dezembro 2021
- novembro 2021
- outubro 2021
- setembro 2021
- agosto 2021
- julho 2021
- junho 2021
- maio 2021
- abril 2021
- março 2021
- fevereiro 2021
- janeiro 2021
- dezembro 2020
- novembro 2020
- outubro 2020
- setembro 2020
- agosto 2020
- julho 2020
- junho 2020
- maio 2020
- abril 2020
- março 2020
- fevereiro 2020
- janeiro 2020
- dezembro 2019
- novembro 2019
- outubro 2019
- setembro 2019
- agosto 2019
- julho 2019
- junho 2019
- maio 2019
- março 2019
- fevereiro 2019
Calendar
| S | T | Q | Q | S | S | D |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | 2 | |||||
| 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | 9 |
| 10 | 11 | 12 | 13 | 14 | 15 | 16 |
| 17 | 18 | 19 | 20 | 21 | 22 | 23 |
| 24 | 25 | 26 | 27 | 28 | 29 | 30 |
| 31 | ||||||

Deixe um comentário