R$ 7,00 setembro o litro: um rugido que virou miado
Não há pensamento que não corte minha escrevivência desta semana. Sangra! Toda carne esfola! Todo estômago revira diante do cenário grotesco que estamos vivendo.
Quase 600 mil mortos pela Covid-19. Destruição pelos campos, cidades e florestas. Medicamentos e vacinas vencendo e estragando sem utilização, diante da necessidade das pessoas. Feijão sendo menosprezado à revelia dos fuzis. Na semana em que se comemora a Independência do país, ameaças à democracia e às instituições. Dói ver o território minado. Não precisávamos passar por isso. Cadê o momento do basta, que não chega?
Ruminando o mundo, cercado de incertezas, sendo picado pelas moscas varejeiras que tomaram o poder pelo golpe, desejantes que nos tornemos mais um no rebanho. Acontece que orgulhamo-nos de nossa potência! Viva a independência! Viva a resistência! Que nossas diferenças sejam tratadas com equidade e nossos novos quilombos possam romper com as lógicas necropolíticas. Valas abissais empurrando os corpos para precariedades inumanas e desiguais.
Somos mais que moscas ao redor da lâmpada. Somos multidões de vagalumes, que subvertemos a ordem posta, do pastor, do líder, do profeta. Quem precisa de profecias, sendo corpos imanência do devir potência para além dos órgãos, do eu e da consciência? Somos corpas em luta. E o que pode uma corpa? O que podem corpas dissidentes em luta? O que podemos nós?
Esse cenário devastador tem nos roubado, empobrecido, matado. A tara da necropolítica instaurada… mas há resistências, mesmo que por vezes exaurida. Gotas d’água em pedras duras, tanto batem até que furam, mas sem perder a função água, seu molejo, que sacoleja, corre curso, leitos, ondas avançares latentes e pulsantes, arruinando os frágeis pilares, que julgava forte o suficiente. Somos correnteza, queda d’água, cachoeira, quebradeiras rio afora, vida que atravessa, rompe, segue o fluxo… Ah, mas dói. Tá doendo.
O Grito dos excluídos apropriado pelo berro dos privilegiados apoiadores dos abismos sociais, que nunca deixaram de existir na história de nosso país e agora ganha proporções agigantadas. Um Brasil colapsado, devastado, num banquete de poucos ossos e muitos ossos, duros de roer, também duros para resistir. Nos pratos esvaziados cada vez mais de feijão, multidões de Lancellottis se multiplicam. Por quanto tempo? Até quando?
“Constitui crime inafiançável a ação de grupos armados, civis ou militares, contra a ordem constitucional e o Estado Democrático” diz o art. 5º, da Constituição Federal. Os manifestos sangram a atual história de nosso país. Pus-me a recolher as mensagens que produzimos pelas ruas, a espantar-me, encorajar-me, procurar as mãos para alianças, para seguirmos em frente, Muitas declarações aspadas, de muitos de nós:
Apesar de você, amanhã há de ser outro dia.
A democracia é inegociável
Genocida!
Fora Cafonas!
Celebrar o crime. Vergonha. Problemas de caráter e hipocrisia. Tirar a foto ao lado daquele que rouba tua dignidade.
Expectativa: derrubar o STF. Realidade: foto com ao lado do ídolo torpe.
Vestir-se bandeira, desviando do corpo estendido no chão.
Pagamentos para lotar um evento, que mesmo assim, não teve a adesão esperada.
Discursos messiânicos, de ódio, opressão, ressaltando ditadores em nome de deus. Colocando-se como escolhido de deus. Que deus? Que escolha?
Vergonha diante do mundo, o país se arrasta no grotesco espetáculo.
A mãe do Brasil é indígena.
Arroz, feijão, vacina, educação! Armas não!
Nossa bandeira não será miliciana.
Pátria ameaçada, Brasil: desespero federal.
Toda essa movimentação para testar as instituições e ver os limites. Parece que certo limite foi dado, ainda que tímido, e o rugido virou miado. É um tsunami que nos revira, contudo, não vivemos sem utopias e sonhos e esperançares. Como escrever sem que as palavras não tragam outros novos possíveis e respirares. Não dá pra escrever sem transformar os caracteres em outros registros possíveis de realidade. Estar entre sempre foi minha condição existencial, e as palavras não fogem à regra. Como destaca Virginie Despetes, no Prefácio do livro, Um apartamento em Urano: crônicas da travessia, de Paul B. Preciado, ao se referir ao amigo:
“não se faz política sem entusiasmo. Quem faz política sem entusiasmo é de direita. E você faz política com um entusiasmo contagioso — sem nenhuma hostilidade contra os que exigem a sua morte, apenas com a consciência da ameaça que eles representam para todos nós. Mas você não tem tempo para a hostilidade nem o temperamento para a cólera — revela mundos a partir das margens, e o que tem de mais surpreendente é essa capacidade de continuar a imaginar outra coisa. Como se as propagandas deslizassem sobre você e seu olhar fosse sistematicamente capaz de desestabilizar as evidências. A sua arrogância é sexy — a arrogância alegre que permite que pense em outros lugares, nos interstícios, que queira morar em Urano e escrever numa língua que não é a sua, antes de dar conferências numa outra língua que tampouco é a sua… Passar de uma língua a outra, de um tema a outro, de uma cidade a outra, de um gênero a outro — as transições são a sua casa.”
Nossas crônicas brasileiras, latino-americanas, são crônicas dessa travessia pela qual passamos juntes. Esse artigo tenta te abraçar, leitor, e dar a mão e tenta me abraçar e me dar a mão também. É bom sabermos que somos muitos e que não estamos sós. Estamos juntes e colorindo os muros e as paredes, como a artista Carolina Jesk, de Botucatu, interior de São Paulo. Por isso, ela foi multada em 35 mil reais, pelas artes com as quais coloriu a cidade. Acredita?
Queremos continuar a colorir nossos aqueerlombamentos! Queremos um país em que Jean Willys, Márcia Tiburi e outres tantes manos e manas trans e travestis, negros e negras, LGBTIA+ e queers, mulheres, indígenas, crianças… possam viver dignamente, sem serem ameaçados de morte! Queremos produção de vida! Queremos viver! É muito, querer viver com dignidade?
*Régis Moreira, Comunicólogo Social e Gerontólogo, doutor pela ECA (USP) em Ciências da Comunicação, docente do Depto de Comunicação da Universidade Estadual de Londrina (UEL), onde atua como pesquisador na área de comunicação, envelhecimento e gênero. Pesquisador do Observatório Nacional de Políticas Públicas e Educação em Saúde.
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