Um Rio balzaquiano
Por Carlos Monteiro*
Os dias no Rio têm amanhecido com um certo ar de mistério, empoderados, maduros, lindos, absolutamente reais. Bem capaz de ser uma forma de homenagear Honoré de Balzac, quando se completam 175 anos desde que nos deixou em 18 de agosto de 1850 a caminho de Aruanda.
Alvoreceres balzaquianos, um “Le Lys dans la vallée” orvalhado. Em busca, quem sabe, das “Illusions perdues”, ou, talvez, da “La Recherche de l’absolu”.
O fato é que, para homenageá-lo, a natureza, sutilmente, elegantemente, encantadoramente, tal qual “La Femme de trente ans”, pediu que viessem as fragatas em seu balé. Já não mais um ensaio, mas a apresentação de estreia para uma plateia absolutamente seleta. Vieram acompanhadas pelos urubus-rei e de alguns gaviões-carijó. Numa coreografia integrativa, bailaram, bailaram, bailaram sobretudo, creio eu, para esquecerem “La comédie humaine” destes tempos trevosos nos quais vivemos atualmente. Como é cruel bailar assim.
Com açúcar e muito afeto seguiram bailando pela amplidão. Num instante de ilusão, voaram, bailaram na fumaça de um mundo novo, fazem um novo mundo na fumaça.
Os irmãos Valle trautearam na voz de Cláudia: “Não confie em ninguém com mais de trinta anos / Não confie em ninguém com mais de trinta cruzeiros / O professor – Pasquale e seus auxílios luxuosos – tem mais de trinta conselhos / Mas ele tem mais de trinta, oh mais de trinta/Oh mais de trinta, oh mais de trinta…”.
Foram retrucados por Miltinho em versos de Luiz Antônio: “…No meu olhar, na minha voz / Um novo mundo, sinta! /É bom sonhar, sonhemos nós / Eu e você, Mulher de Trinta / Amanhã, sempre vem! / E o amanhã pode trazer alguém!”
O Sol, saiu tímido através da cumulus. Ensaiou um breve malabarismo nas encostas das montanhas arariboianas, tingiu o céu em tons magenta-alaranjados-doirados e se recolheu com vergonha do bailado tão belo e da sutilidade das cariocas com mais de trinta coloridas pelo sol, doiradas pelos reflexos marinhos ou simplesmente desfilantes em suas elegâncias sinceras.
Não se sabe ao certo se o Astro-Rei se esconde entre as nuvens por tantos descalabros que se tem assistido de misoginia, machismo, intolerância, etarismo e misoginia, encimado no éter ou se envergonhado com a beleza sutil e discreta, um breve sussurrar, tão bom perfume da mulher de 30, de 40, de 50, de 60…
Aliás, lugar de mulher é onde ela quiser estar, onde ela se empoderar e, sobretudo, onde ela é simplesmente mulher.
*Carlos Monteiro é cronista, jornalista, fotógrafo e publicitário carioca. Flamenguista e portolense roxo, mas, acima de tudo, umapaixonado pela Cidade Maravilhosa.
Relacionado
Arquivos
- julho 2026
- junho 2026
- novembro 2025
- outubro 2025
- setembro 2025
- agosto 2025
- julho 2025
- junho 2025
- maio 2025
- abril 2025
- março 2025
- fevereiro 2025
- janeiro 2025
- dezembro 2024
- novembro 2024
- outubro 2024
- setembro 2024
- agosto 2024
- julho 2024
- junho 2024
- maio 2024
- abril 2024
- março 2024
- fevereiro 2024
- janeiro 2024
- dezembro 2023
- novembro 2023
- outubro 2023
- setembro 2023
- agosto 2023
- julho 2023
- junho 2023
- maio 2023
- abril 2023
- março 2023
- fevereiro 2023
- janeiro 2023
- dezembro 2022
- novembro 2022
- outubro 2022
- setembro 2022
- agosto 2022
- julho 2022
- junho 2022
- maio 2022
- abril 2022
- março 2022
- fevereiro 2022
- janeiro 2022
- dezembro 2021
- novembro 2021
- outubro 2021
- setembro 2021
- agosto 2021
- julho 2021
- junho 2021
- maio 2021
- abril 2021
- março 2021
- fevereiro 2021
- janeiro 2021
- dezembro 2020
- novembro 2020
- outubro 2020
- setembro 2020
- agosto 2020
- julho 2020
- junho 2020
- maio 2020
- abril 2020
- março 2020
- fevereiro 2020
- janeiro 2020
- dezembro 2019
- novembro 2019
- outubro 2019
- setembro 2019
- agosto 2019
- julho 2019
- junho 2019
- maio 2019
- março 2019
- fevereiro 2019
Calendar
| S | T | Q | Q | S | S | D |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | 2 | |||||
| 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | 9 |
| 10 | 11 | 12 | 13 | 14 | 15 | 16 |
| 17 | 18 | 19 | 20 | 21 | 22 | 23 |
| 24 | 25 | 26 | 27 | 28 | 29 | 30 |
| 31 | ||||||

Deixe um comentário