DA PROSA À POESIA
Permitir que desabroche a escritora que habita em mim foi uma das maiores conquistas após completar 64 anos. Escrever é fonte de prazer, alegria, criatividade, aprendizado e diálogo comigo mesma e com o outro. Cresço e sou canal para que as pessoas deem uma pausa em seus afazeres e destinem alguns momentos para uma reflexão sobre sua própria história.
Vou partilhar uma prosa que tive com um amigo a partir da crônica “Uma forte luz brilha em nós”.
Nessa crônica fiz o relato de um piquenique fantástico, logo interrompido por uma tempestade. Conto os recursos e as estratégias que utilizamos para transformar o limão em limonada e desfrutar daquele momento, mesmo com chuva. Concluí a crônica afirmando que não importa o tamanho da tempestade: o sol sempre irá brilhar.

Um amigo meu comentou:
– A tempestade é muito bela também. Às vezes não conseguimos apreciá-la quando estamos muito próximos dela. Mas a chuva é necessária para os novos brotos.
– Sim, a tempestade nos oferece a oportunidade de dar uma parada e ressignificar a trajetória de vida – completei. – Permite avaliar o desejo que nos motiva a agir e identificar o que está bom e o que precisa melhorar para seguir em frente com segurança, alegria e plenitude.
– Isso! – exclamou meu amigo. – Nem sempre é fácil sair de cena e admitir que as mudanças são necessárias.
– Concordo com você – respondi. – A chuva possibilita o nascimento de novos brotos. Além disso, as lágrimas (que rolam como se fossem chuva) também nos curam das dores e possibilitam que a esperança volte a conduzir nossa vida.
Meu amigo comentou:
– Parar diante da tempestade alimenta a vital-idade.
– Amei o trocadilho – elogiei. – Tem a conotação de alimentação da vida e da idade.
Meu amigo assinalou uma descoberta:
– A segunda parte (“idade”) eu não havia percebido… Vital-idade!
– Sim: “vital-idade” – repeti. – A forma como conduzimos nossa vida irá refletir em nossa vita-lidade, vital-idade, vida-idade, na qualidade de vida e na intensidade que imprimimos em cada etapa da nossa existência. Nesse contexto de busca permanente, perceber que existe um sol dentro de nós faz toda diferença.
Continuei a prosa:
– Nem sempre é fácil encontrar o sol em nós. É mais fácil ficar na lamentação, na projeção, na vitimização, na implicância com o outro, na presença compulsiva nas redes sociais.
– Verdade – disse meu amigo. – Chegamos a uma idade em que as coisas estão mais sedimentadas. Quem enfrentou e superou situações espinhosas ao longo da vida tem maior possibilidade de lidar com as adversidades que surgem no envelhecimento. Quem no passado se negou a viver lutos, raivas, medos e ressentimentos tende no presente a ficar paralisado em alguns momentos. Esses sentimentos reprimidos explodem com força em certas circunstâncias, aumentando a confusão interior e o sentimento de culpa. Nossa mente, com sua costumeira crueldade, aponta-nos o dedo acusador, afirma que não somos amados, proclama que somos inadequados, insiste em repisar nossas falhas.
– A dificuldade em acolhermos a nossa humanidade aumenta a ansiedade e a solidão – completei.
Meu amigo concordou, afirmando:
– O ser humano tem que ter projeto de vida. Em qualquer idade tem que parar, avaliar e construir novos projetos. Veja o caso da sua mãe, que com 88 anos resolveu reformar o apartamento. Nessa idade a maioria dos velhinhos desiste de viver.
– Excelente lembrança – concordei. – Mamãe é um exemplo perfeito do recomeçar sempre. Em todas as etapas da vida ela ressignificou as perdas e recomeçou. Ela soube alimentar a vita-lidade, a vital-idade.
Esta prosa me levou a refletir sobre como dói perder quem amamos. É desestruturante. Mas, quando temos a coragem de mergulhar no nosso eu, tocar as feridas, identificar as falhas e assumir nossa humanidade, tornamos possível a construção de novos projetos com esperança e confiança. Podemos recomeçar a vida de forma muito mais intensa e madura.
Minha terapeuta Celeste sempre afirma que a vida ganha novo sentido quando a pessoa passa por perdas. É um aprendizado que possibilita relações mais maduras em todas as áreas. Para tanto, a pessoa precisa permitir-se mergulhar na dor e aprender com ela.
Mas interrompo aqui minhas reflexões para dar lugar a uma observação de meu amigo:
– Esta prosa vai virar poesia.
Concordando com ele, finalizei o diálogo afirmando que pensar sobre a vida é transformá-la em poesia. E quem vai reforçar essa ideia é Diego, o Cavaleiro Andante. Por isso incluo nesta crônica as sábias palavras desse poeta popular: “A vida, por si só, é pura poesia. Viva a poesia cotidiana da vida! Poeme-se sempre.”
Vamos entrar na roda e prosear? Que questões este diálogo desperta em você?
A Lume faz jornalismo independente em Londrina e precisa do seu apoio. Curta, compartilhe nosso conteúdo e, quando sobrar uma graninha, fortaleça nossa caminhada pelo PIX (Chave CNPJ: 31.330.750/0001-55). Se preferir contribuir com um valor mensal, participe da nossa campanha no Apoia-se https://apoia.se/lume-se.
LEIA TAMBÉM
A importância do Grupo de Apoio no enfrentamento das perdas
Beatriz Herkenhoff
You may also like
Relacionado
No comments
Deixe um comentário Cancelar resposta
Arquivos
- julho 2026
- junho 2026
- novembro 2025
- outubro 2025
- setembro 2025
- agosto 2025
- julho 2025
- junho 2025
- maio 2025
- abril 2025
- março 2025
- fevereiro 2025
- janeiro 2025
- dezembro 2024
- novembro 2024
- outubro 2024
- setembro 2024
- agosto 2024
- julho 2024
- junho 2024
- maio 2024
- abril 2024
- março 2024
- fevereiro 2024
- janeiro 2024
- dezembro 2023
- novembro 2023
- outubro 2023
- setembro 2023
- agosto 2023
- julho 2023
- junho 2023
- maio 2023
- abril 2023
- março 2023
- fevereiro 2023
- janeiro 2023
- dezembro 2022
- novembro 2022
- outubro 2022
- setembro 2022
- agosto 2022
- julho 2022
- junho 2022
- maio 2022
- abril 2022
- março 2022
- fevereiro 2022
- janeiro 2022
- dezembro 2021
- novembro 2021
- outubro 2021
- setembro 2021
- agosto 2021
- julho 2021
- junho 2021
- maio 2021
- abril 2021
- março 2021
- fevereiro 2021
- janeiro 2021
- dezembro 2020
- novembro 2020
- outubro 2020
- setembro 2020
- agosto 2020
- julho 2020
- junho 2020
- maio 2020
- abril 2020
- março 2020
- fevereiro 2020
- janeiro 2020
- dezembro 2019
- novembro 2019
- outubro 2019
- setembro 2019
- agosto 2019
- julho 2019
- junho 2019
- maio 2019
- março 2019
- fevereiro 2019
Calendar
| S | T | Q | Q | S | S | D |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | 2 | |||||
| 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | 9 |
| 10 | 11 | 12 | 13 | 14 | 15 | 16 |
| 17 | 18 | 19 | 20 | 21 | 22 | 23 |
| 24 | 25 | 26 | 27 | 28 | 29 | 30 |
| 31 | ||||||

Linfa reflexão. Quando estive na ilha de Gran Canarias, que é vulcânica, levei um susto. De pronto achei horrível aquelas paisagens cinzas, áridas, as praias de puras pedras… Logo me corrigi e vi que ali era outro tipo de beleza. Precisava, pois, mudar o olhar para o novo….
Uma prosa que vira poesia é a prosa do que há de sensivel no ser, na simplicidade de uma tarde ensolarada, num diálogo com um amigo, numa escuta atenta que revela sonorizações, homofonias… e o poetizar acontece!
No basquete há uma regra interessante, a equipe que está de posse da bola tem 24 segundos para fazer o arremesso e tentar marcar os pontos, se estourar o tempo a bola passa para equipe adversária, a princípio muitos viam essa regra como negativa, mas os estrategistas desse esporte fizeram da regra uma arma positiva, eles fizeram com que os atletas entendessem que eles teriam 24 segundos para trabalhar a jogada, logo não precisavam se afobar e desperdiçar uma jogada arremessando de qualquer jeito.
Sempre podemos extrair lições de momentos adversos.