Permitir que desabroche a escritora que habita em mim foi uma das maiores conquistas após completar 64 anos. Escrever é fonte de prazer, alegria, criatividade, aprendizado e diálogo comigo mesma e com o outro. Cresço e sou canal para que as pessoas deem uma pausa em seus afazeres e destinem alguns momentos para uma reflexão sobre sua própria história.

Vou partilhar uma prosa que tive com um amigo a partir da crônica “Uma forte luz brilha em nós”.

Nessa crônica fiz o relato de um piquenique fantástico, logo interrompido por uma tempestade. Conto os recursos e as estratégias que utilizamos para transformar o limão em limonada e desfrutar daquele momento, mesmo com chuva. Concluí a crônica afirmando que não importa o tamanho da tempestade: o sol sempre irá brilhar.

Foto: Carlos Monteiro

Um amigo meu comentou:

– A tempestade é muito bela também. Às vezes não conseguimos apreciá-la quando estamos muito próximos dela. Mas a chuva é necessária para os novos brotos.

– Sim, a tempestade nos oferece a oportunidade de dar uma parada e ressignificar a trajetória de vida – completei. – Permite avaliar o desejo que nos motiva a agir e identificar o que está bom e o que precisa melhorar para seguir em frente com segurança, alegria e plenitude.

 – Isso! – exclamou meu amigo. – Nem sempre é fácil sair de cena e admitir que as mudanças são necessárias.

– Concordo com você – respondi. – A chuva possibilita o nascimento de novos brotos. Além disso, as lágrimas (que rolam como se fossem chuva) também nos curam das dores e possibilitam que a esperança volte a conduzir nossa vida.

Meu amigo comentou:

– Parar diante da tempestade alimenta a vital-idade.

– Amei o trocadilho – elogiei. – Tem a conotação de alimentação da vida e da idade.

Meu amigo assinalou uma descoberta:

– A segunda parte (“idade”) eu não havia percebido… Vital-idade!

– Sim: “vital-idade” – repeti. – A forma como conduzimos nossa vida irá refletir em nossa vita-lidade, vital-idade, vida-idade, na qualidade de vida e na intensidade que imprimimos em cada etapa da nossa existência. Nesse contexto de busca permanente, perceber que existe um sol dentro de nós faz toda diferença.

Continuei a prosa:

– Nem sempre é fácil encontrar o sol em nós. É mais fácil ficar na lamentação, na projeção, na vitimização, na implicância com o outro, na presença compulsiva nas redes sociais.

– Verdade – disse meu amigo. – Chegamos a uma idade em que as coisas estão mais sedimentadas. Quem enfrentou e superou situações espinhosas ao longo da vida tem maior possibilidade de lidar com as adversidades que surgem no envelhecimento. Quem no passado se negou a viver lutos, raivas, medos e ressentimentos tende no presente a ficar paralisado em alguns momentos. Esses sentimentos reprimidos explodem com força em certas circunstâncias, aumentando a confusão interior e o sentimento de culpa. Nossa mente, com sua costumeira crueldade, aponta-nos o dedo acusador, afirma que não somos amados, proclama que somos inadequados, insiste em repisar nossas falhas.

– A dificuldade em acolhermos a nossa humanidade aumenta a ansiedade e a solidão – completei.

Meu amigo concordou, afirmando:

– O ser humano tem que ter projeto de vida. Em qualquer idade tem que parar, avaliar e construir novos projetos. Veja o caso da sua mãe, que com 88 anos resolveu reformar o apartamento. Nessa idade a maioria dos velhinhos desiste de viver.

– Excelente lembrança – concordei. – Mamãe é um exemplo perfeito do recomeçar sempre. Em todas as etapas da vida ela ressignificou as perdas e recomeçou. Ela soube alimentar a vita-lidade, a vital-idade.

Esta prosa me levou a refletir sobre como dói perder quem amamos. É desestruturante. Mas, quando temos a coragem de mergulhar no nosso eu, tocar as feridas, identificar as falhas e assumir nossa humanidade, tornamos possível a construção de novos projetos com esperança e confiança. Podemos recomeçar a vida de forma muito mais intensa e madura.

Minha terapeuta Celeste sempre afirma que a vida ganha novo sentido quando a pessoa passa por perdas. É um aprendizado que possibilita relações mais maduras em todas as áreas. Para tanto, a pessoa precisa permitir-se mergulhar na dor e aprender com ela.

Mas interrompo aqui minhas reflexões para dar lugar a uma observação de meu amigo:

– Esta prosa vai virar poesia.

Concordando com ele, finalizei o diálogo afirmando que pensar sobre a vida é transformá-la em poesia. E quem vai reforçar essa ideia é Diego, o Cavaleiro Andante. Por isso incluo nesta crônica as sábias palavras desse poeta popular: “A vida, por si só, é pura poesia. Viva a poesia cotidiana da vida! Poeme-se sempre.”

Vamos entrar na roda e prosear? Que questões este diálogo desperta em você?

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  1. Linfa reflexão. Quando estive na ilha de Gran Canarias, que é vulcânica, levei um susto. De pronto achei horrível aquelas paisagens cinzas, áridas, as praias de puras pedras… Logo me corrigi e vi que ali era outro tipo de beleza. Precisava, pois, mudar o olhar para o novo….

  2. Avatar de Maria Celeste Lima de Barros Faria
    Maria Celeste Lima de Barros Faria

    Uma prosa que vira poesia é a prosa do que há de sensivel no ser, na simplicidade de uma tarde ensolarada, num diálogo com um amigo, numa escuta atenta que revela sonorizações, homofonias… e o poetizar acontece!

  3. No basquete há uma regra interessante, a equipe que está de posse da bola tem 24 segundos para fazer o arremesso e tentar marcar os pontos, se estourar o tempo a bola passa para equipe adversária, a princípio muitos viam essa regra como negativa, mas os estrategistas desse esporte fizeram da regra uma arma positiva, eles fizeram com que os atletas entendessem que eles teriam 24 segundos para trabalhar a jogada, logo não precisavam se afobar e desperdiçar uma jogada arremessando de qualquer jeito.
    Sempre podemos extrair lições de momentos adversos.

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