Calma, não venda sua alma
Observe o mundo que se desfralda
Um mundo que se desenvolve
O ar, outrora tão solto
Se encontra agora revolto
Tenso, denso, uma respiração pesada
Um peito arfando
É o cansaço de estar vivendo.
Calma, não venda sua alma.
Observe o mundo que se revolve
Como pólvora em um revólver
Um cano pesando na mão do atirador
Seu cerebro a revolver
Palavras gastas como projéteis
Tambores ferventes em um giro incessante
Ricocheteios inúteis
E como cartuchos vazios
Palavras caem ao seu redor.
Calma, não venda sua alma.
Observe o seu mundo a sua volta
Como um porco a limpar uma cena de crime
Recolha as palavras
Guarde-as em seu arsenal
Volte para casa.
Limpe os cartuchos
Abasteça-os de verbetes
Sele-os com sabedoria.
Calma, não venda sua alma.
Observe-se em meio à desnaturação
Altere a saturação do olhar
Devolva os olhares a te encarar
Pressione o gatilho
E assista o sangue jorrar.
Calma, não venda sua alma.
Observe o mundo se pintar de sangue
Observe a folha a se cobrir de palavras
Sinta o furor inquieto do ódio contido
Despeje a raiva em doses (nada) homeopáticas
Se deixe queimar como a pólvora
Se permita incendiar.
Calma, não venda sua alma.
Observe o espetáculo
De cima do seu pináculo
Assopre a fumaça que ainda se levanta
Aprecie o resultado de sua obra
Valeu a pena não vender a alma.
Calma.
Não vendi minha alma.
Essa poesia é inspirada no livro “Homens Pretos (Não) Choram”, no conto de nome “Bilola”. Talvez um clamor as angústias de um jovem poeta preto preso nas singelas palavras de Stefano Volp.
Talvez um poeta estafado de amor, que só quer escrever sobre as mazelas da vida em paz, sem se desviar nos verbos românticos de sempre.
Um poeta estafado do amor, estafado de sofrer por amar, estafado do sofrimento de ser um jovem preto, estafado de ser poeta.
Embora não tenha vendido minha alma, ela está fechada para reformas (descansos).
*Antonio Rodríguez, 19, estudante e poeta nas horas vagas (e algumas ocupadas também). Apaixonado pela vida, faz o máximo para transformar tudo em poesia. Mantém o Instagram @a.poetizando.me
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