Cambé e Arapongas se destacam em ranking nacional de letalidade policial
De acordo com anuário, em apenas dez municípios do país, as mortes decorrentes da ação das polícias passam da metade do total de mortes violentas; as duas cidades vizinhas estão entre eles
O novo Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) nesta quinta-feira (24), traz uma notícia preocupante para a segurança pública do Paraná, especialmente na região de Londrina. Os dados foram publicados pela Agência Pública.
Entre os indicadores apresentados no anuário está o das cidades em que as mortes decorrentes de intervenção policial (MDIP) em 2024 representaram mais de 50% do total de mortes violentas intencionais (MVI) — que incluem homicídio doloso, latrocínio, feminicídio e lesão corporal seguida de morte.
São apenas 10 municípios em todo o país nessa situação, e dois deles estão no Paraná: Cambé aparece em quarto lugar e Arapongas, em quinto. Em Cambé, a proporção de MDIP entre as MVI foi de 61,9%, e em Arapongas, de 58,8%.
A cidade de Itabaiana (SE) lidera o ranking, com uma proporção de 75%. Em segundo e terceiro lugares, empatadas, estão as cidades paulistas de Santos e São Vicente, ambas com 66,1%. “As duas cidades foram palco da Operação Verão/Escudo no início de 2024, considerada a mais letal da Polícia Militar de São Paulo desde o massacre do Carandiru, em 1992”, ressalta o anuário.
O documento não traz o número absoluto de mortes por cidade, mas, segundo o Ministério Público do Paraná (MP-PR), 13 pessoas foram mortas pela polícia em Cambé e 10 em Arapongas em 2024. Em Londrina, foram 49 mortes.
De acordo com o anuário, estudos nacionais e internacionais apontam que, quando as mortes decorrentes de intervenção policial ultrapassam 10% do total de homicídios, há indícios consistentes de uso abusivo da força. A média nacional desse indicador está em 14,1%.
Cenário estadual
De acordo com o anuário, o Paraná registrou 400 mortes decorrentes de intervenção policial (MDIP) no ano passado — número diferente dos 413 apontados em balanço do Ministério Público do Paraná (MP-PR) divulgado no início do ano. O crescimento em relação ao ano anterior foi de 17%, segundo o anuário, e de 19%, de acordo com o MP.
O Paraná costuma figurar como o quinto estado onde a polícia mais mata no Brasil — o que, à primeira vista, pode parecer compatível com o fato de ser também o quinto mais populoso. No entanto, uma análise mais detalhada dos dados do Fórum, que permitem comparações entre as unidades da federação, revela que a situação do Paraná é particularmente negativa em relação aos estados vizinhos do Sul e Sudeste.
Nos últimos anos, em números absolutos, as polícias paranaenses vêm matando de duas a três vezes mais do que as polícias gaúcha e mineira — embora Minas Gerais tenha quase o dobro da população do Paraná (21,3 milhões contra 11,8 milhões), e o Rio Grande do Sul tenha população levemente inferior (11,2 milhões).
Em 2024, segundo o FBSP, apenas o Rio de Janeiro, entre os estados do Sul e Sudeste, teve uma taxa de mortes por intervenção policial por 100 mil habitantes superior à do Paraná. A taxa fluminense foi de 4,1 mortes, enquanto a do Paraná foi de 3,4. Os demais estados apresentaram índices bem inferiores: Espírito Santo (1,9), São Paulo (1,8), Rio Grande do Sul (1,3), Santa Catarina (1,0) e Minas Gerais (0,9).
OUTRO LADO
A Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp) do Paraná afirma que os policiais seguem “rigorosos protocolos de treinamento para o uso escalonado e diferenciado da força”, e que a utilização de arma de fogo “ocorre exclusivamente como último recurso”.
Veja íntegra da nota enviada pela Sesp à reportagem:
“As forças de segurança do Paraná seguem rigorosos protocolos de treinamento para o uso escalonado e diferenciado da força. Ainda assim, situações de confronto armado são um risco constante enfrentado pelas polícias em todo o mundo, especialmente no combate ao crime organizado e na proteção da população.
Nesses casos, o uso de arma de fogo ocorre exclusivamente como último recurso, diante de uma agressão injusta e iminente contra policiais ou terceiros, sempre com o objetivo de resguardar a segurança dos cidadãos frente à criminalidade violenta.
Os números de homicídios, furtos e roubos vêm caindo no Paraná desde 2019, alcançando, em 2024, o menor patamar da série histórica. Na comparação com 2010, por exemplo, a taxa de homicídios caiu pela metade no ano passado. O Estado também registra o menor índice histórico de crimes contra o patrimônio, resultado de investimentos em diversas áreas, como a contratação de policiais, aquisição de helicópteros, viaturas e novos armamentos.
Além disso, os testes com câmeras corporais estão em andamento, com o objetivo de avaliar as condições de uso e armazenagem das imagens. A apuração do caso ocorrido em Londrina segue sob análise da Corregedoria da Polícia Militar.”
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