Cidade Partida: a convivência das classes em cidades com dois mundos
Por Tainá de Paula*
Fotos: Carlos Monteiro
O processo de ‘favelização’ no Brasil se iniciou com a abolição, quando os escravizados foram ‘libertos’ e não tinham para onde ir ou onde ficar. Sendo assim, foram empurrados para a margem da sociedade e das grandes cidades. No Rio de Janeiro, por exemplo, o Morro da Providência, uma das primeiras favelas do Brasil, é um exemplo desse adensamento da população negra no final do século XIX.
Dando um salto no tempo, vamos para a década de 1980. A partir daí, temos o boom do chamado êxodo rural, quando a população brasileira passou a ser 84,4% urbana, segundo estimativa do IBGE, e, com um crescimento desordenado, os poderes públicos não investiram em infraestrutura física, saneamento básico, moradias e transporte público.
Assim como as infraestruturas sociais, emprego e renda também não acompanharam esse crescimento desordenado das áreas periféricas. Desta forma, a ‘urbanização periférica’ ocorrida no Brasil no intervalo de 50 anos contribuiu para as chamadas “Cidades Partidas”.
A cidade do Rio de Janeiro é um caso à parte quando se trata de urbanismo, encontro de classes e natureza.
Raramente um bairro do Rio, mesmo que de classe média alta, não terá uma favela próxima, é uma característica da própria urbanização da cidade e do processo de ‘empurramento’ das pessoas mais pobres, principalmente os negros, para as periferias. Com o tempo, foram tirando os negros dos centros e levando para os morros.












Um ano após a chacina ocorrida na comunidade de Vigário Geral, Zona Norte do Rio de Janeiro, que vitimou 21 pessoas, o jornalista Zuenir Ventura lançou o livro “Cidade Partida”, onde ele fala das diferenças entre “as duas cidades” dentro do Rio de Janeiro: o morro e o asfalto.
O termo “morro” considera as favelas, as comunidades que nem sempre são verticais, podem ser planos, mas que moram, em sua grande maioria, pessoas negras e periféricas. Por outro lado, o asfalto é o local onde moram as pessoas da classe média alta.
Esse adensamento populacional gera um déficit habitacional no Brasil de 5,876 milhões de moradias, um aumento de 0,11% em relação a 2018 e os estados do Norte e Nordeste são os mais afetados com a situação.
Coincidência ou não, também são as regiões com menor número de famílias em situação de vulnerabilidade social e insegurança alimentar, segundo a Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar (Rede PENSSAN).
O déficit habitacional no Brasil beira números absurdos e essa ‘falta de preocupação’ social sempre foi muito explícita. Sabemos que quem mais sofre com essa deficiência governamental é o preto, pobre e periférico. O saneamento básico não chega a todos os moradores de favelas justamente por não haver essa preocupação com quem está nas encostas, em áreas de risco. As pessoas que residem nesses locais não estão lá por opção, mas por falta dela mesmo.
Nós sabemos a origem das favelas e como elas foram criadas. A tentativa de eugenia social para que o Rio de Janeiro se tornasse uma Paris só agravou a situação dos ex-escravizados, que ficaram relegados à própria sorte. Mas o Brasil não é a França e o resultado foi catastrófico para os nossos.
*Tainá de Paula é vereadora licenciada e Secretária de Ambiente e Clima da Cidade do Rio de Janeiro. Ela também é arquiteta, urbanista e ativista das lutas urbanas e foi convidada pelo cronista
*Carlos Monteiro é cronista, jornalista, fotógrafo e publicitário carioca. Flamenguista e portolense roxo, mas, acima de tudo, um apaixonado pela Cidade Maravilhosa
Leia também:
Coletivo Black Divas recebe título de utilidade pública
A Lume faz jornalismo independente em Londrina e precisa do seu apoio. Curta, compartilhe nosso conteúdo e, quando sobrar uma graninha, fortaleça nossa caminhada pelo PIX (Chave CNPJ: 31.330.750/0001-55). Se preferir contribuir com um valor mensal, participe da nossa campanha no Apoia-se https://apoia.se/lume-se.
You may also like
Relacionado
Arquivos
- julho 2026
- junho 2026
- novembro 2025
- outubro 2025
- setembro 2025
- agosto 2025
- julho 2025
- junho 2025
- maio 2025
- abril 2025
- março 2025
- fevereiro 2025
- janeiro 2025
- dezembro 2024
- novembro 2024
- outubro 2024
- setembro 2024
- agosto 2024
- julho 2024
- junho 2024
- maio 2024
- abril 2024
- março 2024
- fevereiro 2024
- janeiro 2024
- dezembro 2023
- novembro 2023
- outubro 2023
- setembro 2023
- agosto 2023
- julho 2023
- junho 2023
- maio 2023
- abril 2023
- março 2023
- fevereiro 2023
- janeiro 2023
- dezembro 2022
- novembro 2022
- outubro 2022
- setembro 2022
- agosto 2022
- julho 2022
- junho 2022
- maio 2022
- abril 2022
- março 2022
- fevereiro 2022
- janeiro 2022
- dezembro 2021
- novembro 2021
- outubro 2021
- setembro 2021
- agosto 2021
- julho 2021
- junho 2021
- maio 2021
- abril 2021
- março 2021
- fevereiro 2021
- janeiro 2021
- dezembro 2020
- novembro 2020
- outubro 2020
- setembro 2020
- agosto 2020
- julho 2020
- junho 2020
- maio 2020
- abril 2020
- março 2020
- fevereiro 2020
- janeiro 2020
- dezembro 2019
- novembro 2019
- outubro 2019
- setembro 2019
- agosto 2019
- julho 2019
- junho 2019
- maio 2019
- março 2019
- fevereiro 2019
Calendar
| S | T | Q | Q | S | S | D |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | 2 | |||||
| 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | 9 |
| 10 | 11 | 12 | 13 | 14 | 15 | 16 |
| 17 | 18 | 19 | 20 | 21 | 22 | 23 |
| 24 | 25 | 26 | 27 | 28 | 29 | 30 |
| 31 | ||||||

Deixe um comentário