O extraordinário do ordinário
Por Sylvio do Amaral Schreiner*
Somos frequentemente levados a acreditar que aquilo que tem valor é o que aparece, o que impressiona, o que pode ser exibido e reconhecido socialmente como um feito grandioso. Assim, conquistas materiais, posições de prestígio, acúmulo de riquezas, viagens exóticas e títulos de destaque passam a ser colocados no centro das aspirações. No entanto, a experiência psicanalítica nos ensina que, na realidade da vida psíquica, a verdadeira fonte de vitalidade e de bem-estar costuma estar em lugares muito menos ruidosos, muitas vezes silenciosos, discretos e quase invisíveis ao olhar coletivo.
Freud, em seus escritos, já alertava para o fato de que a felicidade humana nunca poderia ser entendida como um estado contínuo e permanente de prazer. Ao contrário, ela se faz presente em pequenas doses, em satisfações transitórias e passageiras que surgem em meio à vida cotidiana. São momentos de intensidade breve, mas capazes de tocar profundamente a experiência do sujeito: um encontro simples e sem pretensão com alguém querido, uma caminhada tranquila ao fim da tarde, a contemplação de algo belo que desperta surpresa, ou até mesmo o sabor de um prato preparado com afeto. Esses instantes, aparentemente banais, carregam uma densidade psíquica que muitas vezes é superior às conquistas consideradas grandiosas.

Foto: Alexander Mass/Unsplash
Winnicott, em sua obra, mostrou-nos que é justamente no brincar, atividade aparentemente desimportante, espontânea e simples, que a criança encontra a si mesma e descobre o mundo. Esse mesmo princípio pode ser estendido ao adulto: é naquilo que parece menor, nas experiências despretensiosas, que se encontram os alicerces de uma vida mais inteira. O que sustenta a continuidade do ser não é o extraordinário, mas a repetição afetiva de pequenos gestos cotidianos que oferecem a sensação de pertencimento e de continuidade.
Quando o sujeito despreza o simples em nome do monumental, corre o risco de se afastar daquilo que realmente o enraíza na vida. A busca incessante pelo extraordinário pode ser, muitas vezes, o desejo de se proteger de um vazio interno ou da dificuldade de estar só consigo mesmo. O sujeito, então, se perde em um movimento frenético de conquista e exposição, tentando se sustentar no brilho do olhar do outro. No entanto, ao transformar a vida em espetáculo, perde justamente aquilo que ela tem de mais essencial: a textura dos instantes que passam despercebidos, mas que dão corpo ao existir.
Leia também: Uma provocação e um até breve
Valorizar o simples não é sinônimo de se conformar a uma vida empobrecida, mas sim reconhecer a riqueza que existe naquilo que é imediato e próximo. É, sobretudo, um exercício de presença afetiva. Aprender a estar no aqui e agora, sem se perder na ilusão de que apenas o que é grandioso pode trazer felicidade.
Quando o indivíduo consegue distinguir o essencial do supérfluo, a vida se torna mais habitável e mais verdadeira. Viver bem, com qualidade, é permitir-se encontrar sentido nas pequenas coisas e, ao mesmo tempo, relativizar as exigências impostas pelo olhar social.
Essa distinção, no entanto, não se dá de forma espontânea. Trata-se de um trabalho interno, um trabalho psíquico que envolve elaborar a tendência humana a se perder no desejo de reconhecimento e aprender a nutrir-se daquilo que não precisa ser exibido. Por isso, pode-se dizer que a vida de qualidade não está na quantidade de conquistas, mas na capacidade de apreciar nuances delicadas que não podem ser medidas nem contabilizadas. É permitir que o tempo cotidiano, em sua aparente monotonia, se revele como portador de pequenas joias de sentido. Aquele que consegue reconhecer a preciosidade do simples está menos intoxicado pela vaidade e mais enraizado na experiência de ser, encontrando no cotidiano uma fonte inesgotável de vitalidade e de humanidade.
*Sylvio do Amaral Schreiner (CRP 08/11179) é psicoterapeuta e psicanalista membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Curitiba (SBPCuritiba), atendendo adolescentes e adultos em seu consultório em Londrina. É colunista da Folha de Londrina e escreve quinzenalmente na Rede Lume.
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