Opinião: Pode um defensor dos direitos humanos ser um assediador?
O que o fato de uma figura central dos direitos humanos ser acusada de crimes contra a dignidade sexual revela sobre os direitos humanos das mulheres? Como compreender que um intelectual da importância de Silvio Almeida viole corpos femininos, violando, assim, nossa dignidade enquanto pessoas?
Por Cecília França*
Foto em destaque: Fábio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil
Quando o advogado, filósofo e professor universitário Silvio Almeida assumiu o Ministério dos Direitos e Cidadania todas as pessoas que atuam, militam e pesquisam nessa área comemoraram. A escolha de um intelectual negro, com contribuições indiscutíveis para o pensamento social e racial brasileiros, simbolizava um resgate da pauta pós Bolsonaro-Damares. Por isso a consternação geral na última semana, quando denúncias de importunação e assédio, moral e sexual, contra o agora ex-ministro vieram à tona.
A situação toda foi e vem sendo causa de sofrimento. Muitos intelectuais e influenciadores negros e negras reagiram com tristeza e ressaltaram o viés racial da questão. Não é desprezível o fato de o acusado ser um homem negro. Menos ainda que uma das denunciantes, a ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, também seja.
Mas e aí? Como nós, que estudamos e militamos pelos direitos humanos, podemos compreender que um intelectual de referência na área cometa os crimes dos quais está sendo acusado, viole corpos femininos e, por consequência, nossa dignidade enquanto pessoas?
Leia também: MPT instaura inquérito para apurar denúncias contra Silvio Almeida
(Nota: aqui validamos a palavra das mulheres e ao menos três – ainda que Anielle não tenha publicizado, ela confirmou o ocorrido – confirmaram as importunações e os assédios cometidos pelo ex-ministro. Crimes contra a dignidade sexual são de difícil comprovação, porque acontecem nas sombras. Por isso o relato das vítimas tem grande peso)
Seria, então, falsidade o discurso icônico do ex-ministro em sua posse, no qual afirmava, entre outras coisas: “Mulheres do Brasil, vocês existem e são valiosas para nós. / Homens e mulheres pretos e pretas do Brasil, vocês existem e são valiosos para nós”? Obviamente que não.
Direitos humanos das mulheres
Em 2023, propus e realizei um programa de entrevistas na UEL FM intitulado “Direitos das mulheres são direitos humanos”. Levei mulheres diversas para tratar do tema. Mulheres indígenas, periféricas, transexuais, foram enfáticas ao dizer “os direitos humanos não nos alcançam”. E não alcançam porque foram pensados para um ser humano universal. E o ser humano universal é um homem. E é branco. E heterossexual. E cristão.
A intelectual Bárbara Carine destacou, em seu perfil no Instagram, que Silvio Almeida, como homem negro, não é o “ser humano universal”. O que explique, talvez, as fortes reações às denúncias. O ex-ministro está sujeito, porém – como todos os outros homens e mulheres -, à estrutura patriarcal e machista. Isto o isenta dos supostos crimes? Não. Isso evidencia o quanto o machismo perpassa toda e qualquer ideologia política; como todas as pessoas estão sujeitas a replicar ou ressignificar opressões; o quanto o poder distorce e desvirtua relações.
Quando surgiram as primeiras denúncias de ex-alunas e orientadas do ex-ministro eu me lembrei imediatamente das denúncias de assédio e apropriação intelectual que vieram à tona em 2023 contra o sociólogo português Boaventura de Souza Santos, outra referência no campo dos direitos humanos. Na época eu estava escrevendo meu artigo da Especialização em Direitos Humanos, pela qual eu havia lido textos de Santos, e tive um bloqueio até para utilizá-lo como referência bibliográfica.
Em uma das muitas matérias sobre o caso de Silvio Almeida uma professora comentou que continuará utilizando os livros do ex-ministro nas aulas, mas que apresentará a incoerência aos alunos. Parece-me correto. Ou toda a sua contribuição intelectual e teórica deveria ser invalidada?
Leia também: ‘Não é Não’: Conheça leis de proteção às mulheres
Certo é que o caso nos lembra, mais uma vez, que nossos direitos enquanto mulheres não estão assegurados, embora escritos em leis e acordos. Não estão garantidos. Porque participamos de uma sociedade para a qual nossos corpos são públicos; para a qual nosso “não” quer dizer “sim”; onde nossa dignidade humana é rotineiramente violada porque, para parte da sociedade, não somos realmente humanas. E isso se intensifica quando trazemos raça e classe social para a conversa.
Denúncias de crimes contra a dignidade sexual de mulheres cometidos por uma figura central na defesa dos direitos humanos no Brasil expõe nossa fragilidade na estrutura social que perdura há séculos e deve nos impulsionar na luta – para além de nos entristecer.
*Cecília França é jornalista e tem pós-graduação em Direitos Humanos. Editora da Rede Lume desde 2019. Ativista feminista e dos direitos humanos
A Lume faz jornalismo independente em Londrina e precisa do seu apoio. Curta, compartilhe nosso conteúdo e, quando sobrar uma graninha, fortaleça nossa caminhada pelo PIX (Chave CNPJ: 31.330.750/0001-55). Se preferir contribuir com um valor mensal, participe da nossa campanha no Apoia-se https://apoia.se/lume-se.
You may also like
Relacionado
Arquivos
- julho 2026
- junho 2026
- novembro 2025
- outubro 2025
- setembro 2025
- agosto 2025
- julho 2025
- junho 2025
- maio 2025
- abril 2025
- março 2025
- fevereiro 2025
- janeiro 2025
- dezembro 2024
- novembro 2024
- outubro 2024
- setembro 2024
- agosto 2024
- julho 2024
- junho 2024
- maio 2024
- abril 2024
- março 2024
- fevereiro 2024
- janeiro 2024
- dezembro 2023
- novembro 2023
- outubro 2023
- setembro 2023
- agosto 2023
- julho 2023
- junho 2023
- maio 2023
- abril 2023
- março 2023
- fevereiro 2023
- janeiro 2023
- dezembro 2022
- novembro 2022
- outubro 2022
- setembro 2022
- agosto 2022
- julho 2022
- junho 2022
- maio 2022
- abril 2022
- março 2022
- fevereiro 2022
- janeiro 2022
- dezembro 2021
- novembro 2021
- outubro 2021
- setembro 2021
- agosto 2021
- julho 2021
- junho 2021
- maio 2021
- abril 2021
- março 2021
- fevereiro 2021
- janeiro 2021
- dezembro 2020
- novembro 2020
- outubro 2020
- setembro 2020
- agosto 2020
- julho 2020
- junho 2020
- maio 2020
- abril 2020
- março 2020
- fevereiro 2020
- janeiro 2020
- dezembro 2019
- novembro 2019
- outubro 2019
- setembro 2019
- agosto 2019
- julho 2019
- junho 2019
- maio 2019
- março 2019
- fevereiro 2019
Calendar
| S | T | Q | Q | S | S | D |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | 2 | |||||
| 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | 9 |
| 10 | 11 | 12 | 13 | 14 | 15 | 16 |
| 17 | 18 | 19 | 20 | 21 | 22 | 23 |
| 24 | 25 | 26 | 27 | 28 | 29 | 30 |
| 31 | ||||||

Deixe um comentário