Solidão em tempos de hiperconexão
Por Sylvio Shreiner*
Um grande prazer iniciar uma coluna aqui na Rede Lume para falar sobre saúde mental. Um tema que interessa a todos nós e que influencia diretamente em como vivemos a vida. E hoje trago algumas reflexões sobre a solidão, que é um dos grandes paradoxos da contemporaneidade. Vivemos numa era em que a comunicação nunca foi tão instantânea e as redes de contato nunca foram tão amplas. Estamos cercados de pessoas, atravessados por mensagens, imagens e vozes que chegam a todo instante. No entanto, a experiência subjetiva da solidão permanece e, em muitos casos, se intensifica.
É como se estivéssemos mais expostos do que nunca ao olhar dos outros, mas, menos encontrados em nossa essência.
A qualidade da vida emocional não depende apenas da quantidade de pessoas ao redor, mas da possibilidade de estabelecer vínculos significativos. O simples fato de estar em companhia não basta para afastar a solidão. É necessário sentir-se reconhecido, acolhido e conectado de forma autêntica. Quando isso não ocorre, instala-se um vazio interno que pode levar ao adoecimento. A ausência de laços verdadeiros mina a capacidade de usufruir dos prazeres da vida e empobrece a experiência subjetiva.

Foto: Giles Lambert/Unsplash
O irônico é que a solidão não poupa ninguém. Atinge pessoas de todas as classes sociais, níveis de escolaridade e idades. Pode estar presente tanto no jovem hiperconectado, que busca incessantemente curtidas nas redes sociais, quanto no adulto bem-sucedido, rodeado de prestígio e compromissos, mas que sente a insuportável falta de intimidade emocional. Não é incomum encontrarmos pacientes que descrevem a solidão como um “silêncio ensurdecedor” ou uma “falta que não se preenche”, mesmo estando acompanhados.
A psicanálise entende que, muitas vezes, esse sofrimento está ligado a dificuldades de entrar em contato com a própria vida emocional. Há quem busque incessantemente fora aquilo que não conseguiu construir dentro: a capacidade de estar só sem se sentir abandonado. Esse é um aprendizado psíquico fundamental que é a de suportar a própria companhia sem angústia. Só quando conseguimos estar conosco, de maneira criativa e viva, podemos estar verdadeiramente com o outro.
Assim, a solidão, quando não elaborada, se torna um fator de risco para a saúde mental. Pode se expressar em sintomas depressivos, ansiosos ou psicossomáticos, comprometendo a vitalidade psíquica. Mas, quando reconhecida e atravessada no espaço da análise, pode abrir caminho para a descoberta de novas formas de estar no mundo. O trabalho analítico convida o sujeito a transformar o vazio em espaço criativo. Em vez de prisão; em território fértil, e não em deserto.
Leia também: O preconceito nosso de cada dia
A solidão, nesse sentido, é ao mesmo tempo uma dor e uma oportunidade. Ela denuncia a falta, mas também pode inaugurar a busca por encontros mais verdadeiros consigo mesmo e com o outro. Em um tempo em que a hiperconexão muitas vezes encobre a desconexão emocional, a psicanálise nos lembra que não basta falar com muitos, mas é preciso encontrar, em algum lugar, alguém com quem se possa falar de verdade.
*Sylvio do Amaral Schreiner (CRP 08/11179) é psicoterapeuta e psicanalista membro filiado da Sociedade Brasileira de Psicanálise de Curitiba (SBPCuritiba), atendendo adolescentes e adultos em seu consultório em Londrina. É colunista da Folha de Londrina e escreve quinzenalmente na Rede Lume.
You may also like
Relacionado
Arquivos
- julho 2026
- junho 2026
- novembro 2025
- outubro 2025
- setembro 2025
- agosto 2025
- julho 2025
- junho 2025
- maio 2025
- abril 2025
- março 2025
- fevereiro 2025
- janeiro 2025
- dezembro 2024
- novembro 2024
- outubro 2024
- setembro 2024
- agosto 2024
- julho 2024
- junho 2024
- maio 2024
- abril 2024
- março 2024
- fevereiro 2024
- janeiro 2024
- dezembro 2023
- novembro 2023
- outubro 2023
- setembro 2023
- agosto 2023
- julho 2023
- junho 2023
- maio 2023
- abril 2023
- março 2023
- fevereiro 2023
- janeiro 2023
- dezembro 2022
- novembro 2022
- outubro 2022
- setembro 2022
- agosto 2022
- julho 2022
- junho 2022
- maio 2022
- abril 2022
- março 2022
- fevereiro 2022
- janeiro 2022
- dezembro 2021
- novembro 2021
- outubro 2021
- setembro 2021
- agosto 2021
- julho 2021
- junho 2021
- maio 2021
- abril 2021
- março 2021
- fevereiro 2021
- janeiro 2021
- dezembro 2020
- novembro 2020
- outubro 2020
- setembro 2020
- agosto 2020
- julho 2020
- junho 2020
- maio 2020
- abril 2020
- março 2020
- fevereiro 2020
- janeiro 2020
- dezembro 2019
- novembro 2019
- outubro 2019
- setembro 2019
- agosto 2019
- julho 2019
- junho 2019
- maio 2019
- março 2019
- fevereiro 2019
Calendar
| S | T | Q | Q | S | S | D |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | 2 | |||||
| 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | 9 |
| 10 | 11 | 12 | 13 | 14 | 15 | 16 |
| 17 | 18 | 19 | 20 | 21 | 22 | 23 |
| 24 | 25 | 26 | 27 | 28 | 29 | 30 |
| 31 | ||||||

Deixe um comentário