Especial LGBTfobia: o que esperar a partir da criminalização?
LGBTs de Londrina consideram decisão do STF um avanço, mas temem dificuldade nas denúncias
Cecília França
Rede Lume de Jornalistas
Quantas vezes na vida você já deixou de fazer coisas ou frequentar lugares simplesmente por ser quem você é? Quantas vezes precisou pensar na reação dos outros antes de interagir com uma criança ou manifestar uma vontade? Privar-se de atividades básicas e de lazer, controlar reações espontâneas, moldar-se ao que a sociedade considera conveniente são situações rotineiras na vida da população LGBT, permeada por pequenas ou escancaradas violências. Agora, com a criminalização da LGBTfobia pelo Supremo Tribunal Federal (STF) abre-se a possibilidade de denúncia formal destas agressões e penalização dos responsáveis.
Quando começamos a produzir este especial nossa intenção era reunir as várias opiniões de representantes da população LGBT em Londrina em uma grande matéria. Porém, depois das entrevistas feitas, entendemos que as formas de preconceito enfrentadas e o apagamento sofrido por cada grupo são tão específicos que precisavam ser abordados um a um. Começamos hoje, com a entrevista da atriz e produtora cultural Mel Campus, ativista dos direitos das travestis.
Todos os entrevistados concordam que a criminalização da LGBTfobia representa um avanço, porém, apontam problemáticas na questão de se criminalizar uma forma de pensar que é estrutural. Isto porque parte da sociedade discorda, inclusive o presidente Jair Bolsonaro, que classificou a decisão como “completamente equivocada“.
Para Mel, a criminalização vai possibilitar que a população transexual faça denúncias sem ser questionada. “Eu já sofri inúmeras violências que foram naturalizadas pelo fato de eu ser travesti”, relata. No entanto, ela receia que não exista um sistema de recepção para as denúncias, o que, na prática, inviabilizaria a transformação destas em processo.
A biomédica Luana Cossentini, uma das criadoras da Parada LGBT de Londrina, diz que a criminalização vem ao encontro dos anseios do grupo, mas que ainda falta muito entendimento dentre os próprios integrantes desta população.
“Tem muitos que acham isso uma bobagem. Eu, antes de entrar na organização da parada, não entendia preconceitos que eu mesma sofria. Hoje eu penso quanta coisa eu poderia ter feito e não fiz por não entender como crime ou não saber quanto poderia me afetar no futuro”, conta.
Políticas públicas
A criminalização da LGBTfobia ainda não é uma lei no Brasil. O STF agiu diante da morosidade do Congresso Nacional em legislar sobre o tema e equiparou o crime de violência contra esta população ao crime de racismo, punido com pena de um a cinco anos de reclusão. Vale lembrar, no entanto, que existem projetos na Câmara que buscam retroagir em direitos já conquistados, possibilitando, por exemplo, internação compulsória desta população.
Alex Gallo, psicólogo, docente da Universidade Estadual de Londrina (UEL) e doutor em violência de gênero, acredita que a criminalização é parte de um processo semelhante ao que já ocorreu no combate à violência contra a mulher.
Ele ressalta que há mais de duas décadas começou-se a pensar em políticas públicas de combate à violência de gênero, resultando na Lei Maria da Penha, aprovada em 2006. A partir daí, a mulher passou a ter a certeza de que sua denúncia se transformaria em um processo, porém, ainda enfrenta dificuldades na ponta, para fazer a denúncia.
Situação semelhante deve ser enfrentada pela população LGBT, no entanto, havendo a criminalização há um respaldo para se exigir medidas efetivas.
“A partir do momento que as pessoas passam a entender como uma violência dá para se pensar em políticas de acolhimento”, conclui.
Leia a primeira reportagem da série, com Mel campus.
You may also like
Relacionado
No comments
Arquivos
- julho 2026
- junho 2026
- novembro 2025
- outubro 2025
- setembro 2025
- agosto 2025
- julho 2025
- junho 2025
- maio 2025
- abril 2025
- março 2025
- fevereiro 2025
- janeiro 2025
- dezembro 2024
- novembro 2024
- outubro 2024
- setembro 2024
- agosto 2024
- julho 2024
- junho 2024
- maio 2024
- abril 2024
- março 2024
- fevereiro 2024
- janeiro 2024
- dezembro 2023
- novembro 2023
- outubro 2023
- setembro 2023
- agosto 2023
- julho 2023
- junho 2023
- maio 2023
- abril 2023
- março 2023
- fevereiro 2023
- janeiro 2023
- dezembro 2022
- novembro 2022
- outubro 2022
- setembro 2022
- agosto 2022
- julho 2022
- junho 2022
- maio 2022
- abril 2022
- março 2022
- fevereiro 2022
- janeiro 2022
- dezembro 2021
- novembro 2021
- outubro 2021
- setembro 2021
- agosto 2021
- julho 2021
- junho 2021
- maio 2021
- abril 2021
- março 2021
- fevereiro 2021
- janeiro 2021
- dezembro 2020
- novembro 2020
- outubro 2020
- setembro 2020
- agosto 2020
- julho 2020
- junho 2020
- maio 2020
- abril 2020
- março 2020
- fevereiro 2020
- janeiro 2020
- dezembro 2019
- novembro 2019
- outubro 2019
- setembro 2019
- agosto 2019
- julho 2019
- junho 2019
- maio 2019
- março 2019
- fevereiro 2019
Calendar
| S | T | Q | Q | S | S | D |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | 2 | |||||
| 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | 9 |
| 10 | 11 | 12 | 13 | 14 | 15 | 16 |
| 17 | 18 | 19 | 20 | 21 | 22 | 23 |
| 24 | 25 | 26 | 27 | 28 | 29 | 30 |
| 31 | ||||||

Deixe um comentário