Por Beatriz Herkenhoff*

Acordei agradecendo pela vida das crianças brasileiras e do mundo todo.

Elas nos renovam com sua alegria e pureza. Convidam à vivência do amor incondicional e nos fazem acreditar que um mundo mais humano, justo e igualitário é possível.

Gostaria de enviar para cada criança essa carta que meu filho Stefano escreveu para sua afilhada Beatriz Bezerra Grijó, quando ela completou três anos.

“Em um belo dia em que o sol raiou e a lua se apresentava cheia. Veio ao mundo uma menininha um
quanto especial. Com nome de Beatriz, aquela que nos faz feliz. Encantou todos daquele reino que andava sem flores. Ainda não sabia, nem o olho abria, mas, já mexia com cada vida que se trombava.
Nos olhos da gente grande explicou como todos haviam se esquecido da simplicidade que nos rodeia. E
mostrou um belo sorriso desdentado, com barulhos engraçados e caretas extrovertidas.

Aquela gente grande, que vivia perdida, percebeu então o futuro. Encontrou então a motivação para continuar esculpindo as pedras de um rumo tão sem flores. Naquele dia 18 de fevereiro de 2011, nada seria o mesmo. Todos que naquele reino viviam, ao encontrar a tal Beatriz, deixaram um sorriso escapar, uma piada inventar para a ela alegrar. Caso tudo em sua volta se fechasse, olhavam para os céus e chamavam por sua companhia.

Hoje são três anos que essa loirinha nos rodeia. Três anos muito bonitos para três pessoas que tanto
amamos. Três assopradas nas velas para três desejos ingênuos: papai, mamãe e Beatriz. E toda felicidade que ela pode encontrar. São os primeiros e eternos desejos. A cada ano um novo desejo, e as asas vão crescendo para voar por esse mundo e enchê-lo de flores. Para a cada encontro jorrar sorrisos e amores. E que seja sua sentença, fazer e ser feliz. Amamos muito você e seus pais” (Stefano, 18/02/2014, Vitória, ES).

Com essa linda carta quero convidá-los a resgatar a força da vida, da esperança e do amor diante de cada criança que nasce. Que possamos preencher o universo das crianças e dos adolescentes com palavras de amor e reconhecimento.

Fotos: Carlos Monteiro

Escrever poesias que colocam as crianças como centro, contar histórias que resgatam sua potência e deem asas para que voem. Que as crianças nos ajudem a espalhar sementes e que as flores brotem em pedras. Pedras que endureceram os caminhos e os corações.

Vivemos momentos de muita dor com as atrocidades das guerras.

Impossível não ser tocada pelas cenas de morte e destruição.

Impossível segurar o choro.

Impossível ficar indiferente e não se indignar.

Impossível não pensar de forma especial nas crianças, nos jovens, nas mães, nos pais e nos idosos.

Impossível ficar sem orar. Clamar aos céus que a paz predomine. Que o diálogo impere. Que a guerra chegue ao fim.

Também fico muito sensibilizada com as guerras silenciosas com um número assustador de crianças passando fome no Brasil e no mundo. Crianças que perambulam pelas ruas das cidades, que não
frequentam as escolas, que são submetidas a maus tratos e violência cotidiana.

Todas as crianças têm direito ao amor, ao cuidado, à proteção, à segurança alimentar, à saúde, à moradia, entre tantas outras demandas para que possam dançar, correr, nadar, brincar, crescer
e desabrochar em seus talentos e potencialidades.

Amo tanto as crianças que eu me sinto atraída e encantada quando as vejo. Procuro interagir, conversar e brincar.

Seu jeito alegre de ser e viver transporta-me para um mundo de magia.

Quando quero interagir, ajoelho e fico da sua altura. Gosto de olhar nos seus olhos penetrantes que nos encaram com sua doçura e curiosidade.

Olhos que transmitem a certeza de que é possível construirmos um Reino de amor e de paz.

Ter tempo para as crianças, sentar com elas, ser conduzida por suas brincadeiras, fantasias e imaginações faz a diferença em minha vida.

Amo a criança que fui e que sou.

A minha espontaneidade, alegria, jeito de amar e viver é crédito da minha criança.

Cuido da minha criança e preservo a sua energia.

Mas, a minha criança interior também tem medo de ser abandonada, muitas vezes quer reeditar experiências negativas e me induzir a decisões equivocadas.

Nesses momentos, pego minha criança no colo, converso com ela, acalmo, tranquilizo, dou segurança, agradeço por sua beleza e digo que ela pode descansar, que sou adulta e posso lidar com os desafios da vida.

Esses diálogos interiores são fundamentais para encontrar o meu eixo e equilíbrio.

Desfrutar da intensidade da minha criança e ao mesmo tempo acalmar seus ímpetos, é uma tarefa cotidiana.

Que possamos amar todas as crianças, colocá-las como prioridade absoluta. Implementar programas e política sociais voltadas para as demandas das crianças e dos adolescentes.

Que ações, compromissos e gestos podemos ter em relação às crianças e aos adolescentes?

Como garantir seus direitos?

Como construir a paz e reduzir a fome e a violência no Brasil e no mundo?

*Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora do livro: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021) e “Legados: Crônicas sobre a vida em qualquer tempo (2022)

Leia também: Após eleição, conselheira tutelar reeleita desabafa: ‘Quanta distorção’

6 respostas para “Ser criança”

  1. Avatar de Eliane Rangel Ervatti
    Eliane Rangel Ervatti

    Parabéns!!! Mas uma vez nos surpreendendo.
    Tbm acredito que o dia em que nossas crianças receberem amor, atenção e dedicação política que contribua para sua formação o mundo vai melhorar e muito.
    Tbm acredito que as políticas sociais teria que iniciar lá na barriguinha da Mae e pai, ensinando como receber, educar, e amar corretamente seus filhos.
    Enquanto houver país sem preparo nunca teremos crianças bem formadas.
    A tecnologia e facilidade de aprendizado chegou! E com ela, teremos que lidar novas formas de aprender e educar nosso pequenos.
    Bjs
    Eliane

  2. Avatar de maria josé Oliveira Lima roque
    maria josé Oliveira Lima roque

    Eu tambeém tenho uma criança dentro de mim. Obrigada por me embrar!

  3. Avatar de Maria Jose Herkenhoff Carvalho
    Maria Jose Herkenhoff Carvalho

    Que lindo texto, Beatriz!
    Suas crônicas são inspiradoras! Linda a sua fala sobre as crianças…
    As crianças, essas pessoinhas maravilhosas, são luzes a iluminar a nossa vida em cada momento, cheias de verdade e simplicidade. Também amo as crianças…
    Penso também no que você escreveu sobre a guerra silenciosa, no sistema que dirige para as desigualdades, na miséria e na fome, e nas guerras urbanas que ceifam mais vidas de crianças e jovens do que a guerra… tento cuidar do que posso no meu círculo, mas nem sempre consigo…
    Lindo o que você disse sobre as políticas sociais voltadas a crianças e jovens!
    Que possamos contribuir para diminuir a miséria e a fome. Que tenhamos atitudes capazes de mudar ao menos o nosso lugar, é o que penso e tenho tentado fazer…quem sabe, um dia chego lá!
    Obrigada pelo leveza, alegria e pela reflexão que a sua crônica fez em meu coração!

  4. Avatar de Maria Celeste Lima de Barros Faria
    Maria Celeste Lima de Barros Faria

    Bela crônica, nos acorda para a riqueza que é acompanhar o desenvolvimento infantil desde a mais tenra infância. Lembrando que a criança que nos habita deve ser nutrida também de zelo e autocuidado permanentes, considerando que o lado sensível da existência é pleno do que há de mais profundo no ser, sendo a criança a melhor ilustração do que o adulto deve para sempre cultivar. Manoel de Barros, o poeta das miudezas nos diz: “Quando eu crescer quero ser criança.”

  5. Avatar de Thais Carezzato de Araujo
    Thais Carezzato de Araujo

    Obrigada por nos lembrar do amor que temos em nós! E fé nas crianças (adultas ou não!) ❤️

  6. Avatar de maria josé Oliveira Lima roque
    maria josé Oliveira Lima roque

    Vc me estimulou a amar a criança que existe no meu interior! Que beleza!

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