Somos luzes e sombras
Por Beatriz Herkenhoff*
Amamos e odiamos.
Perdoamos e guardamos ressentimentos.
Somos solidários e indiferentes.
Desapegados e acumuladores.
Cooperamos e competimos.
Nos alegramos com a felicidade do outro e invejamos suas conquistas.
Respeitamos e somos preconceituosos.
Lutamos pela justiça e somos injustos.
Amamos e ferimos.
Acolhemos e abandonamos.
Somos humanos e imperfeitos.
A indiferença, o abandono, a solidão, a agressividade, a divisão entre familiares e amigos, o egoísmo, a falta de sensibilidade e de solidariedade está predominando nas relações sociais.

Cada um quer ter razão, dominar, comandar, sobressair-se, ser melhor do que o outro.
Cultivamos sentimentos que matam as relações de amor, de aceitação, de inclusão, de diálogo e de cooperação.
As sombras enfraquecem as luzes que deveriam brilhar em nosso eu e em nossa sociedade.
Nesse período da quaresma (que teve início na quarta-feira de cinzas) somos convidados a mergulhar em nossas misérias, limites, sombras e contradições.
Perceber que somos parte do todo e como contribuímos para a divisão em nosso cotidiano.
Ao mesmo tempo, como podemos fortalecer a fé, o amor, o perdão, a solidariedade, a justiça, a generosidade, a tolerância, a fraternidade e a amizade?
Como exercer a caridade, a misericórdia e a compaixão?
Que mudanças precisamos realizar em nossos gestos e atitudes?
Que feridas nos impedem de amar verdadeiramente?
Como superar o egoísmo, a vaidade e a prepotência?
Como reduzir as sombras que habitam em nós?

A Campanha da Fraternidade 2024 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) nos inspira nessa trajetória.
Com o tema: “Fraternidade e Amizade Social” e o lema: “Vós sois todos irmãos e irmãs” (Mt. 23, 8), a Campanha baseia-se na Encíclica do Papa Francisco Fratelli Tutti.
Considero fundamental essa escolha. A fraternidade e a amizade possibilitam recomeços. Os amigos caminham ao nosso lado em momentos em que achamos que vamos sucumbir, em que perdemos o chão, em que não vemos saída.
Os amigos resgatam a nossa esperança, são cumplices, solidários, amorosos, dão as mãos para sairmos do fundo do poço.
Nossa sociedade tão carente de amor, precisa valorizar o poder da amizade.
As redes fraternas, de afeto e de apoio possibilitam construções coletivas no enfrentamento dos problemas pessoais e sociais, como a fome, a pobreza, a falta de moradia, a violência, o preconceito, as guerras, entre outras mazelas.
Nesse processo de busca por um mundo mais justo e humano, cabem as perguntas:
Vivemos verdadeiramente como irmãos?
Cultivamos a fraternidade, o perdão e a amizade social?
Como desenvolver ações que contribuam para eliminar a divisão em nossas famílias e na sociedade?
Como reduzir o ódio, os conflitos, as mentiras e a indiferença?
Como inserir-me em redes sociais fraternas e solidárias?
A Encíclica Fratelli Tutti fala sobre a vivência do amor e da amizade social no enfrentamento desses desafios. Nos convida a:
Sair de nós mesmos e ir ao encontro do próximo.
Exercitar a caridade.
Abrir nosso coração para o cuidado com os mais frágeis e vulnerabilizados.
Superar os preconceitos, a ganância e os interesses pessoais.
Acolher, proteger e promover aqueles que estão em situação de rua, os migrantes e os imigrantes.
Estimular a paz, a fraternidade e a justiça em todos os ambientes por onde circulamos.
Cuidar da natureza, dos rios, dos mares e dos povos originários.
Estar atentos aos idosos, às crianças e às vítimas de violência, tirando-os do isolamento e da solidão.
Que a nossa sensibilidade elimine a indiferença.
Que as desigualdades sociais não sejam vistas como naturais.
Que o conceito de felicidade não se restrinja às conquistas pessoais e familiares.
Que possamos viver um amor que inclua a nossa Casa Comum e suas criaturas.
Que seja construída a unidade e o respeito entre as religiões.
Que a fraternidade universal amplie ações humanitárias e libertadoras.
Nessa revisão de vida percebo que:
A minha capacidade de amar ainda é limitada.
Preciso viver a fraternidade e a amizade universal com mais intensidade.
Não podemos permanecer indiferentes a uma realidade de dor e sofrimento para a maioria da população do Brasil e do mundo.
Que a globalização da indiferença seja substituída pela globalização da solidariedade (Papa Francisco).
Como afirma o Hino da Campanha da Fraternidade 2024:
“A quaresma nos chama a assumir um amor que supera barreiras. Desejando abraçar e acolher se estendendo além das fronteiras. Rompendo as cadeias que isolam construindo relações verdadeiras.”
Que mudanças preciso realizar para construir novas relações de amor e fraternidade?
*Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora do livro: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021) e “Legados: Crônicas sobre a vida em qualquer tempo (2022)
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Lindo. Em especial chamado a romper s indiferença em relação ao outro. A pobreza faz ruido, a violência faz ruido, o preconceito faz ruído. Fingir que não ouvimos?!?
Precisamos mergulhar mais na Amizade Social! Só ela pode ajudar a construir o mundo. Não podemos ser amigos de todos, pois isso inclui um sentimento pessoal, mas podemos praticar a Amizade Social por todos, sendo educados e desejando vida em abundância para todos! Bela crônica, Beatriz.
Tudo muito bem posto, Bia. Sem amigos a vida é impossível. Pena que as pessoas não percebam que o gari é mais importante que o presidente. Sem o presidente é possível viver, mas sem o gari de jeito algum. No entanto nos voltamos para os “poderosos” e esquecemos que importantes são as pessoas que nos ceracam e nos garantem a vida com um mínimo de diginidade (porteitos, cazinheiras, babás, pessoal de área de saúde, policiais, bombeiros, taxistas, cuidadores, mecânicos, eletricistas, etc, etc). Portanto, se queremos ser solidários, presentes nas vidas uns dos outros, é preciso cuidar de olhar para os lados e estender às mãos a todos, especialmente aos mais simples, mais humildes. Se soubéssemos a importância de um abraço, possivelmente cuidaríamos melhor dos que nos cercam.
Olá Bia!
Quem reflexão maravilhosa, me ajudou a pensar minhas relações e como me coloco nesse mundo tão corrido, tão rápido. gosto de refletir a CF com as crianças e adolescentes da minha CEB. Penso que a CF é uma excelente oportunidade de realizar os ensinamentos de Jesus. Vou postar no grupos da CEB e das famílias dos catequisandos. Gratidão