Ao longo de minha vida organizei muitas viagens, passeios, piqueniques e comemorações em parques e praias.

Antes de cada encontro, sempre oro e peço a Deus luz para que tudo dê certo. A oração faz parte do meu jeito de ser. O louvor e a gratidão acompanham-me nesses momentos tão especiais.

Peço proteção e plenitude para todos. Que a alegria se multiplique através dessas experiências, fortalecendo a arte do bem viver.

Folcloricamente, gosto de falar que tenho um caso de amor com o sol. Ele se sente atraído por mim e simultaneamente me atrai. Pode estar chovendo na semana ou na véspera de algum evento que eu organizo, no dia, o sol brilha.

Claro que ocorre um somatório de fé, energias e desejos positivos de todos que estão envolvidos na organização. Tenho muitas recordações e histórias interessantes sobre este tema. Mas vou destacar uma que foi bem marcante.

Durante 10 anos, no período da infância e adolescência do meu filho Stefano, criamos um belíssimo ritual de realizarmos um piquenique em família todo mês de janeiro. O lugar escolhido era a Praia dos Adventistas, ao lado das Três Praias, em Guarapari (ES). Um lugar paradisíaco! Impactante! Onde a natureza se manifesta em seu esplendor e nos convida a desfrutar, sem pressa e sem preocupação.

Caminhadas surpreendentes, águas transparentes, trilhas pelas pedras e matas, brincadeiras na areia e no mar. Mergulhos desafiantes de pedras altas. Pura adrenalina e confirmação de que podemos explorar novos lugares e possibilidades. Arriscar sem medo! Nunca ficarmos acomodados.

Uma média de 40 pessoas eram envolvidas na organização do piquenique. Sete núcleos familiares com bebês, crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos. Filhos, mães, pais, avós, netos, primos, amigos, namorados, esposos e tios tecendo uma rede de amor, compromisso, alegria e prazer.

Passávamos o dia na praia. Duas árvores frondosas ofereciam conforto. Colocávamos em círculo as barracas de praia, as cadeiras, as mesas com toalhas, a churrasqueira, o isopor com bebidas, entre outras coisas que garantiam uma infraestrutura. Cada família levava porções de carne no espeto, facilitando o churrasco. 

Mexerica, melancia, melão, abacaxi e banana enfeitavam as mesas. Para o almoço, além do churrasco, era colocado em comum panelas de arroz, feijão tropeiro, farofa, frango assado e saladas especiais. Doces caseiros e tortas de sobremesa. Para o lanche da tarde um delicioso cachorro quente, bolos, biscoitos e papa de milho. A partilha gerava abundância e fartura.

As crianças corriam livremente, mergulhavam, furavam ondas, faziam castelinhos e piscinas na areia. Os jovens jogavam frescobol e todos se envolviam no tradicional futebol. Torcida e gargalhadas garantidas. Chuva? Nunca! Céu de brigadeiro? Sempre.

Só que num belo dia de sol, em que estávamos desfrutando, mais uma vez, esse encontro mágico, o céu foi escurecendo e quando menos esperávamos, após o almoço, caiu uma chuva forte. Fazer o quê?

Enfrentamos com coragem, criatividade e ousadia aquela adversidade inesperada. Tomamos banho de mar com chuva (não tinha raios, nem relâmpagos). Pequenos grupos foram se protegendo da chuva embaixo das barracas. Alguns jovens e adultos começaram a circular animadamente com bandejas de melancia, cachorro quente e churrasquinho. Transformamos o limão em limonada. Fortalecemos a rede de afeto, cuidado e proteção.

Como a chuva foi piorando, depois de um tempo, tivemos que desmontar o acampamento. Todos se envolveram numa corrente de cooperação. Ficamos encharcados, lavados e renovados com aquele banho de chuva. E uma certeza tomou conta de todos: “Faça sol ou faça chuva, a vida deve ser vivida com intensidade”.

Não podemos ter medo do amanhã. Não temos controle sobre os acontecimentos. Que a tempestade nunca nos paralise. Pelo contrário, que ela nos convide a um mergulho interior para resgatar a nossa força e potencialidades. Tudo vai passar! Tudo passa! O sol sempre brilha.

*Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora do livro: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021) e “Legados: Crônicas sobre a vida em qualquer tempo (2022)

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  1. Avatar de Mercia Arreguy
    Mercia Arreguy

    Que linda reflexão quando diz:
    Não precisamos ter medo do amanhã, que a tempestade não nos paralise.
    Tudo passa, o sol sempre brilha.
    Como tocou meu coração me fazendo fazer minha viagem interior.
    Obrigada Beatriz!
    Creio neste sol brilhando sempre a quem tem fé.

  2. Avatar de MARIA BEATRIZ LIMA HERKENHOFF
    MARIA BEATRIZ LIMA HERKENHOFF

    Fiquei muito feliz e emocionada com seu feedback Mércia. As pequenas experiências contribuem para que possamos enfrentar os grandes desafios. Que possamos acreditar sempre que tudo passa e que o sol brilha.

  3. Isso, Bia! Não importa se faz sol ou chuva, a vida segue. Sigamos todos porque assim deve ser. Importa que estejamos unidos porque assim poderemos nos fortalecer e nos preparar para as muitas curvas e desvios da estrada da vida.

  4. Vida é fenômeno. Aí esta sua beleza

  5. Vida é surpresas. Aí esta sua beleza

  6. Avatar de Therezinha Herkenhoff
    Therezinha Herkenhoff

    Parabéns, Beatriz, pela bela narrativa de sua crônica! Seus textos são imperdíveis! Leves, mas densos de conteúdo! Bjs

  7. Avatar de maria josé Oliveira Lima roque
    maria josé Oliveira Lima roque

    Valeu Bia! Não se pode prever o tempo com certeza absoluta, mas podemos prever que quando a tempestade chegar, vamos nos virar e aproveitar a vida!

  8. Avatar de Maria Celeste Lima de Barros Faria
    Maria Celeste Lima de Barros Faria

    Sempre surpreendentes os escritos de Beatriz Herkenhoff, nos transportam para uma realidade paralela, na qual nos emocionamos, afetos diversos podem comparecer ao longo da leitura: surpresa, compaixão, espanto, entre outros…
    Mas, esta crônica sobre a celebração da vida, só pode ser lida com um sorriso nos lábios, tal o desejo de estar naquele cenário piqueniquesco, ou mesmo a sensação de lá estar degustando a variedade das iguarias, mas sobretudo o compartilhamento solidário da alegria, do encontro, da paisagem e, aqui e agora, do mergulho no mar das letras bem combinadas de Beatriz!!

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