Justiça adia até 2022 reintegração de posse no Flores do Campo
Por causa da pandemia, justiça suspende por mais três meses retomada do residencial, superlotado de famílias
Cecília França
A 1ª Vara da Justiça Federal de Londrina suspendeu por 90 dias, atendendo a pedido do Ministério Público Federal (MPF), o pedido de reintegração de posse do residencial Flores do Campo, ocupado por centenas de famílias desde 2016. A decisão, publicada na última quarta-feira (13) e assinada pelo juiz federal substituto Gabriel Urbanavicius Marques, também atenta para a persistente situação de emergência em decorrência da pandemia da covid-19 como impedimento para a ação.
O juiz cita a Resolução 18/2020, do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, ainda em vigor, que, dentre outras medidas, determina “a suspensão de prazos dos processos administrativos e judiciais, a realização de audiências, perícias, sessões de julgamento e de conciliação, atermações e outros atos presenciais, ressalvadas situações de urgência devidamente fundamentadas pelo magistrado ou órgão decisório, que deverão ser comunicadas à Presidência, e à Corregedoria Regional, e desde que possam ser atendidas sem a necessidade de atos ou medidas presenciais a serem adotadas pelos sujeitos processuais.”
Mostramos que o medo do despejo é constante entre os moradores. A pandemia só fez crescer o número de famílias vivendo na ocupação, incluindo imigrantes, principalmente venezuelanos. Levantamento da Companhia de Habitação de Londrina (Cohab-Ld) realizado em agosto identificou 361 famílias, número que já aumentou, de acordo com a apoiadora Simone de Oliveira.
“Se chegar uma família hoje pedindo casa não tem disponível, tem fila de espera. Fiz a festa das crianças e o pessoal fez o levantamento: só criança tem 400”, relata.
Carlos Enrique Santana, do Movimento Nacional dos Direitos Humanos (MNDH) em Londrina, estima que já passem das 600 famílias vivendo no local. Ele acompanha desde o início as negociações em torno da desocupação do ‘Flores’ e avalia que os gestores públicos nada fizeram para a solução do impasse.
“Nada do que foi acordado na audiência de conciliação com a juíza federal foi encaminhado pela Cohab e a gestão pública”, diz ele.
A audiência citada por Santana ocorreu há mais de dois anos, no dia 1 de outubro de 2019. Na ocasião, ficou definido que a Universidade Estadual de Londrina (UEL) apresentaria um projeto urbanístico, a ser realizado pela Cohab, para abrigar temporariamente as famílias que ali viviam, 145 naquele momento. O projeto, no entanto, não foi considerado viável.

Cohab relata ‘saga’ por recursos para Flores do Campo
O impasse sobre a desocupação do Flores se arrasta desde 2016, quando as casas inacabadas foram ocupadas. A obra do programa Minha Casa, Minha Vida havia sido paralisada no ano anterior. O presidente da Cohab, Luiz Cândido de Oliveira, nega que a companhia tenha abandonado as negociações. Ele lembra que, por um período, ocorreram reuniões mensais entre entidades e moradores, mas que essas deixaram de ocorrer por desmobilização dos próprios ocupantes. Ele destaca que as ocupações são dinâmicas.
“A ocupação é muito dinâmica, do relatório que fizemos de quem entrou lá, em 2016, apenas cinco permanecem. Durante o período da pandemia entraram 290 famílias”, afirma. Em abril, Oliveira esteve em Curitiba pleiteando recursos para a criação de um auxílio-moradia que contemplasse os moradores do ‘Flores’. A ideia é que eles desocupem os imóveis antes da reintegração, que já está garantida pela justiça.
“Eu fiz as solicitações para o Governo do Estado e fiz também junto à Cohapar (Companhia de Habitação do Paraná) através da utilização do fundo estadual de combate à pobreza. A Cohapar disse que não é para essa finalidade, o governo ainda não respondeu”. Localmente, Oliveira vem tentando articular um projeto de lei que crie o auxílio, no valor de R$ 300.
“Fiz um projeto de lei, foi uma conversa com a vereadora Mara Boca Aberta (PROS), mas por ser do legislativo deu vício de iniciativa. Eu tenho que aapresentar projeto de lei para criar, mas nesse momento não adianta, diante da lei complementar 173, que impede a criação de novas despesas durante a pandemia”, explica.
Oliveira também diz ter ido a Brasília recentemente e apresentado suas preocupações ao secretário nacional de habitação, com pedido de apoio para solução.
Carlos Enrique Santana teme que a desocupação ocorra antes de ser viabilizado outro local para os moradores. “Reintegração de posse com transferência das familias brasileiras para moradias desocupadas no Vista Bela e em outras áreas. É possível sim, basta a juíza determinar”, afirma, com preocupação.
Procurada, a Caixa Econômica respondeu, por meio de nota, que “não comenta ações judiciais em curso”.
“De lá eles não saem”
Simone de Oliveira, apoiadora dos moradores da ocupação, diz que o despejo é uma preocupação. “Eles ficam preocupado com despejo, mas de lá eles não saem porque não têm para onde ir. O pessoal da Venezuela vira e mexe fala que está vindo mais gente da família e vão acabar parando lá”, relata.
Simone diz que a pandemia iniciou o inchaço da ocupação. “No ano passado foi chegando família com criança, família bem estruturada, que tinha perdido o emprego, que não conseguia mais pagar o aluguel. Foi bem crítico no começo”, relembra.
Ela diz que os próprios moradores têm se articulado para garantir melhorias no local, que não tem água, luz ou asfalto. “Agora mesmo, com essa chuva, é difícil pra sair, pra entrar. As empresas não dá emprego porque, se vai sair de lá de dentro vai chegar tudo sujo pra trabalhar, se estiver seco chega com poeira”, relata.
You may also like
Relacionado
Arquivos
- julho 2026
- junho 2026
- novembro 2025
- outubro 2025
- setembro 2025
- agosto 2025
- julho 2025
- junho 2025
- maio 2025
- abril 2025
- março 2025
- fevereiro 2025
- janeiro 2025
- dezembro 2024
- novembro 2024
- outubro 2024
- setembro 2024
- agosto 2024
- julho 2024
- junho 2024
- maio 2024
- abril 2024
- março 2024
- fevereiro 2024
- janeiro 2024
- dezembro 2023
- novembro 2023
- outubro 2023
- setembro 2023
- agosto 2023
- julho 2023
- junho 2023
- maio 2023
- abril 2023
- março 2023
- fevereiro 2023
- janeiro 2023
- dezembro 2022
- novembro 2022
- outubro 2022
- setembro 2022
- agosto 2022
- julho 2022
- junho 2022
- maio 2022
- abril 2022
- março 2022
- fevereiro 2022
- janeiro 2022
- dezembro 2021
- novembro 2021
- outubro 2021
- setembro 2021
- agosto 2021
- julho 2021
- junho 2021
- maio 2021
- abril 2021
- março 2021
- fevereiro 2021
- janeiro 2021
- dezembro 2020
- novembro 2020
- outubro 2020
- setembro 2020
- agosto 2020
- julho 2020
- junho 2020
- maio 2020
- abril 2020
- março 2020
- fevereiro 2020
- janeiro 2020
- dezembro 2019
- novembro 2019
- outubro 2019
- setembro 2019
- agosto 2019
- julho 2019
- junho 2019
- maio 2019
- março 2019
- fevereiro 2019
Calendar
| S | T | Q | Q | S | S | D |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | 2 | |||||
| 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | 9 |
| 10 | 11 | 12 | 13 | 14 | 15 | 16 |
| 17 | 18 | 19 | 20 | 21 | 22 | 23 |
| 24 | 25 | 26 | 27 | 28 | 29 | 30 |
| 31 | ||||||

Deixe um comentário