‘Direitos humanos são só para bandidos’
Visão deturpada predominante na sociedade brasileira foi construída pós-ditadura militar, diz antropóloga
Foto: Agência Brasil/Arquivo
Nelson Bortolin
“Os direitos humanos vão muito mais para o lado dos bandidos do que do nosso.” A reclamação é de uma mulher que integra uma turma de Educação de Jovens e Adultos (EJA) de Londrina. Na sala, com cerca de 15 pessoas, a opinião é quase que unanimemente desfavorável às organizações de defesa dos direitos humanos. “Tenho uma filha policial. Se ela levar um tiro de um bandido, ninguém vai sair em defesa dela. Já, se o bandido levar o tiro, ele vai ser defendido”, afirma outra colega.
Na sexta-feira (18), a reportagem da Lume foi até a escola para um bate-papo com os alunos sobre os direitos humanos – tema trabalhado na véspera pelo professor. A turma é formada majoritariamente por pessoas negras, de diversas faixas etárias, incluindo uma idosa, e conta com a presença de uma transexual.
Em comum, todas tiveram de abandonar a escola em determinado período da vida. E agora voltaram para concluir o ensino fundamental.
“Meu ex-marido não me deixou concluir os estudos. Fiquei mais de 30 anos sem estudar. Voltei no ano passado, quando fiz a sexta e a sétima série”, conta uma aluna na faixa dos 40 anos de idade.
A estudante trans afirma que parou de estudar ainda na década de 1990. “Foi na época que comecei a me assumir. Tinha muito preconceito. Tive de sair da escola”, explica. “Mas hoje nós temos nosso direito de ir e vir garantido”, ressalta. Ela garante que não é mais vítima de transfobia, nem na EJA. “A gente ouve algum palavreado feio nas ruas, mas finjo que nem escuto”, contradiz-se.
O racismo é um assunto que revolta a turma, embora alguns não se identifiquem como negros. “Meu marido é negro e tem gente que levanta no ônibus quando ele senta ao lado”, declara uma mulher.
Outra colega afirma não se lembrar de sofrer racismo, mas conta ter sido ofendida por outro motivo. “Eu sofri muito bullying na escola porque sempre fui gordinha.”
O repórter cita dados sobre mortes de pessoas trans e negras no Brasil e lembra que a defesa dos direitos humanos é bem mais ampla que a luta por um sistema carcerário minimamente digno. Mas não adianta: “Os direitos humanos beneficiam as pessoas erradas. Fico revoltada quando vou no médico e chega a polícia com um criminoso que é atendido antes de mim. Se somos todos iguais por que um preso é atendido antes que um trabalhador?”, questiona uma aluna.
A mulher trans concorda. “Os bandidos ainda recebem para ficar presos. Olha que absurdo. Com tanta gente passando fome no mundo.”
Deturpação
Professora de antropologia na Universidade Estadual de Londrina (UEL), Martha Ramírez-Gálvez considera que o “discurso deturpado” sobre direitos humanos foi “incorporado e é reproduzido por pessoas que são privadas desses direitos: direito a educação, a saúde, a uma vida digna livre de preconceito de gênero, raça/cor, orientação sexual, identidade de gênero, origem, etc”.
Ela afirma que, na década de 1970, durante a ditadura militar, os críticos do regime lutavam pelos direitos políticos, envolvendo a liberdade de expressão, o fim da censura, e da tortura a presos políticos. “Os movimentos sociais reivindicavam direitos coletivos, através de organizações populares, mostrando que a exigência e legitimação de direitos de grupos dominados é sempre um assunto político”, ressalta.
Ela cita um artigo acadêmico escrito em 1991 pela antropóloga Teresa Pires do Rio Caldeira, da Universidade de Campinas (Unicamp), intitulado “Diretos humanos ou privilégios de bandidos?” No texto, a autora diz que, após a ditadura, houve uma “separação no imaginário popular, promovida por políticos de direita e programas televisivos, associando direitos humanos não mais a presos políticos, mas a prisioneiros comuns”.
Os direitos essenciais passam a ser vistos como regalias dadas pelo Estado a marginais. E os seus defensores são identificados como de esquerda. “Os direitos humanos são vistos como necessários para os outros e não para si”, alega.
Para a professora, a visão dos alunos da EJA com os quais a Lume conversou é resultado desse processo, que vem sendo reforçado pelas redes sociais. Na opinião dela, contribui para essa deturpação a forma “desastrosa” como o governo Bolsonaro trata os direitos humanos.
Leia mais: Bolsonaro é condenado por genocídio em julgamento simulado da PUC-SP
Leia mais: Bolsonaro veta absorvente gratuito a estudantes, mulheres em vulnerabilidade e detentas
You may also like
Relacionado
Arquivos
- julho 2026
- junho 2026
- novembro 2025
- outubro 2025
- setembro 2025
- agosto 2025
- julho 2025
- junho 2025
- maio 2025
- abril 2025
- março 2025
- fevereiro 2025
- janeiro 2025
- dezembro 2024
- novembro 2024
- outubro 2024
- setembro 2024
- agosto 2024
- julho 2024
- junho 2024
- maio 2024
- abril 2024
- março 2024
- fevereiro 2024
- janeiro 2024
- dezembro 2023
- novembro 2023
- outubro 2023
- setembro 2023
- agosto 2023
- julho 2023
- junho 2023
- maio 2023
- abril 2023
- março 2023
- fevereiro 2023
- janeiro 2023
- dezembro 2022
- novembro 2022
- outubro 2022
- setembro 2022
- agosto 2022
- julho 2022
- junho 2022
- maio 2022
- abril 2022
- março 2022
- fevereiro 2022
- janeiro 2022
- dezembro 2021
- novembro 2021
- outubro 2021
- setembro 2021
- agosto 2021
- julho 2021
- junho 2021
- maio 2021
- abril 2021
- março 2021
- fevereiro 2021
- janeiro 2021
- dezembro 2020
- novembro 2020
- outubro 2020
- setembro 2020
- agosto 2020
- julho 2020
- junho 2020
- maio 2020
- abril 2020
- março 2020
- fevereiro 2020
- janeiro 2020
- dezembro 2019
- novembro 2019
- outubro 2019
- setembro 2019
- agosto 2019
- julho 2019
- junho 2019
- maio 2019
- março 2019
- fevereiro 2019
Calendar
| S | T | Q | Q | S | S | D |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 1 | 2 | |||||
| 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | 9 |
| 10 | 11 | 12 | 13 | 14 | 15 | 16 |
| 17 | 18 | 19 | 20 | 21 | 22 | 23 |
| 24 | 25 | 26 | 27 | 28 | 29 | 30 |
| 31 | ||||||

Deixe um comentário