Por Beatriz Herkenhoff*

Fotos: Carlos Monteiro

O Tempo da Criação teve início no dia primeiro de setembro e terminará em 4 de outubro, na festa de São Francisco de Assis, o santo padroeiro da ecologia.

O Tempo da Criação reúne cristãos e não cristãos espalhados pelos seis continentes e tem como referência as Encíclicas do Papa Francisco Laudato Si (2015) e Fratelli Tutti (2020).

Na Encíclica Laudato Si o Papa Francisco propõe uma ecologia integral, considerando a indissolubilidade das dimensões humanas, sociais e ambientais. Faz um convite para o cuidado com a Casa Comum e todas as criaturas que nela habitam. A realização de uma educação ambiental que gere mudanças nos hábitos de consumo e de estilos de vida que afetam a capacidade da terra de curar a si mesma. Simultaneamente, sugere que as instituições da sociedade também sejam pressionadas a mudar suas atitudes, pois, a degradação ambiental e a crise socioambiental afetam todos os habitantes do planeta.

A encíclica Fratelli Tutti apresenta propostas belíssimas que exigem mudanças radicais. Afirma que somos feitos para o amor. E é a vivência do amor que possibilita construirmos pontes, abrir nosso coração para o cuidado com os mais frágeis e vulneráveis. Superar os preconceitos e os interesses pessoais. Sair de nós mesmos e ir ao encontro do próximo na dinâmica da caridade (no seu sentido mais amplo e profundo) e da comunhão universal.

O Comitê Ecumênico Diretor definiu o tema do Tempo da Criação para 2022 nos exortando a Escutar a Voz da Criação.

O que precisamos mudar em nós para escutarmos a voz da criação e de suas criaturas?

Sinto-me mobilizada a sair do comodismo quando percebo a fragilidade das crianças e a necessidade de protegê-las. Sou tocada por crianças abandonadas, que passam fome e frio, que estão nas ruas e fora das escolas. Sou tocada pela degradação do nosso planeta com rios e mares poluídos, com florestas em chamas, com a indiferença em relação à demarcação das terras dos povos originários, justamente eles que reconhecem a terra como solo sagrado e cuidam com tanto respeito e harmonia.

Neste fim de semana vivi uma linda experiência amorosa com duas crianças de onze e cinco anos. Elas levaram-me a pensar sobre como ter um compromisso e engajamento maior com o Tempo da Criação.

Foram dois dias intensos com trocas afetivas, gestos cuidadosos e partilha do amor em abundância. Por isso, quero estabelecer um vínculo entre essa pequena experiência pessoal e os desafios postos para o cuidado com as criaturas.

Ficar inteira para duas crianças, reacendeu em mim a crença de que a vida pode ser melhor. E eu pergunto: O que faço para garantir um mundo melhor para as crianças e jovens de todas as classes sociais? Como cuido do nosso planeta e de suas criaturas? Como meu estilo de vida afeta o meio ambiente? Estou assumindo compromissos com formas de vida mais sustentáveis?

Minha casa ficou plena de alegria com a presença de duas crianças. Com muita criatividade, elas conduziram as brincadeiras que pareciam não ter fim. Apresentaram danças com coreografias lindas, com expressões faciais e corporais que me hipnotizaram. Em alguns momentos, a mais nova funcionava como espelho da mais velha, em outros, alçava voos próprios, mostrando a beleza do desabrochar de uma criança em sua singularidade.

Vivências de puro prazer e alegria, gargalhadas garantidas e energia renovada. Voltei a ser criança! Ocorreu uma simbiose entre a infância e a maturidade, como se não soubéssemos o limite que nos separava.   

As refeições foram marcadas pela mistura de cores, sabores, texturas e consistências. Tendo as frutas como carro chefe, saboreamos morangos, uvas e melancia. Internamente fui agradecendo a todos os agricultores que cultivam as frutas, legumes e verduras que chegam à nossa mesa, alimentos que deveriam ser servidos em todas as mesas.  

Em seguida foi a vez do faz de conta através de lindos desenhos e pinturas. O mundo real foi materializado em cores e rabiscos e a música Aquarela de Toquinho se fez presente:

“Numa folha qualquer
Eu desenho um sol amarelo
E com cinco ou seis retas
É fácil fazer um castelo

Corro o lápis em torno da mão e me dou uma luva
E se faço chover com dois riscos, tenho um guarda-chuva
Se um pinguinho de tinta
Cai num pedacinho azul do papel
Num instante imagino uma linda gaivota a voar no céu”

O ritual para adormecer e acalmar também foi mágico! Cada uma fez uma oração, expressou a gratidão pelo dia e cantou uma música. Não esquecemos da nossa Casa Comum e suas criaturas. Quando percebi, tudo se transformou em silencio. Corpo repousando para recomeçar. E nesse momento eu conversei com Deus: que mundo estamos oferecendo para o futuro de nossas crianças?

Somos chamados a escutar a voz das criaturas e da criação. Escutar as vozes que são silenciadas. Incluir cada pessoa em particular, comunidades, espécies e ecossistemas ameaçados pela perda de habitat e pelas mudanças climáticas. Somos convidados a colocar como centro o grito da Terra e o grito dos pobres.  Pensar sobre a construção de novas formas de viver e conviver com a criação e de restaurar nosso planeta.

Substituir o uso de fontes poluidoras, representada pelo uso dos combustíveis fósseis (petróleo, gás natural e carvão) e seus derivados, por fontes limpas, renováveis e alternativas, com destaque para a energia solar, a energia eólica, entre outras.

Viver a Ecologia Integral através de pequenos gestos e compromissos.

Continuei envolvendo minhas crianças na reflexão sobre o tempo da Criação. Decidi passear na natureza. Brincamos com areia, escalamos pedras e quando elas deitaram cansadas olhando para o universo propus: Escutem a voz da criação, o que vocês estão ouvindo e vendo? E elas foram respondendo: “um sol iluminado; um céu azul; nuvens que formam desenhos; uma mangueira enorme; um tronco forte; os galhos e as folhas estão cantando; as flores estão dançando.”

E eu perguntei, vocês já ouviram dizer que a natureza está sofrendo? E elas responderam: “sim, lá perto de casa colocaram fogo na mata; o rio está cheio de lixo; já vi uma foto de uma tartaruga que morreu porque engoliu plástico; tem muitos pobres morando na rua.”

E o que podemos fazer para mudar tudo isso? Disseram: “Quando vou à praia cato o lixo da areia com meus pais; lá em casa separamos o lixo seco; eu dou bom dia aos moradores de rua.”  

Temos muito a aprender com as crianças. Lembrei-me das palavras da Fratelli Tutti: “somos feitos para o amor. E é a vivência do amor que possibilita construirmos pontes, abrir nosso coração para o cuidado com os mais frágeis e vulneráveis.”

Desejo ter tocado sua vida para um compromisso com a nossa Casa Comum e suas criaturas. Que as organizações, igrejas, empresários, trabalhadores, população em geral e governantes, se comprometam com a luta por uma ECOLOGIA INTEGRAL.

*Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora do livro: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021).

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  1. Avatar de Ana Helena Andreao
    Ana Helena Andreao

    Seu texto inteligente e nós revela cuidado com as crianças e o cuidado com o planeta. Exerce uma função extraordinária na formação já dos pequenos. Gratidão

  2. Avatar de Maria Celeste Lima de Barros Faria
    Maria Celeste Lima de Barros Faria

    Muito bom seguir sua caminhada literária! Seus escritos são potentes, mais que arte também nos convocam a refletir sobre as questões sociais e humanas que permeiam nossa contemporaneidade.

  3. Avatar de Alcir Santos de Oliveira
    Alcir Santos de Oliveira

    Gente, gente, que trabalho primoroso! Primeiro esse diálogo incrível do texto com as imagens, uma espécie de namoro telúrico. Depois o texto, denso sem ser pesado, carregado de sentimentos. Aqui tem, sim, carinho, sensibilidade, amor, cuidado, solidariedade. Tudo isso no compartilhamento dessa coisa tão delicada quanto bela que é o entrosamento adulto-crianças. Sabe, emociona, de verdade.

    1. Obrigada pela visita, Alcir. Concordamos que o texto é primoroso.

  4. Avatar de MARIA BEATRIZ LIMA HERKENHOFF
    MARIA BEATRIZ LIMA HERKENHOFF

    Gratidão Ana Helena, Celeste e Alcir por feedbacks tão carinhosos reconhecendo a potência do texto e das fotos. Temas sociais são desafiantes. Por isso temos que tocar corações convidando para a sensibilidade e compromisso com a mudança. Fico feliz quando vocês reconhecem que atingi os objetivos. Sigamos em frente Em busca de Um mundo melhor

  5. Que delícia ler suas crônicas, você consegue passar toda a reação, e sentimentos tão nobres, seja de vivências e convivências mergulhamos no universo da leitura, você é maravilhosa.

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