Por Beatriz Herkenhoff e Ana Caracoche*

Foto: Agência Brasil

Em 1980 Ana Caracoche e Oscar Gatica saíram da Argentina para morar no Brasil. Tinham apenas 34 anos e traziam na bagagem uma história de amor, dor, resistência e luta. 

Na Argentina, Oscar era militante político na área sindical, vinculado aos Montoneros, um grupo de vanguarda do Partido Peronista. Ana participava da juventude da Igreja Católica ligada aos padres do terceiro mundo. Nutriam o sonho de independência econômica, justiça social e soberania política para a Argentina e toda América Latina. 

Ana e Oscar casaram-se em 1974. Maria Eugênia nasceu no dia 06 de fevereiro de 1976 e Felipe nasceu no 23 de dezembro de 1976. A diferença entre os dois era de apenas dez meses. 

Em 1976 houve um golpe cívico, militar e eclesial na Argentina. Todos os militantes dos movimentos sociais e políticos tiveram suas vidas ameaçadas e passaram a viver na clandestinidade. 

Com a palavra Ana Caracoche

Famílias inteiras de amigos desapareceram. Fui presa e torturada porque queriam saber do paradeiro de Oscar. Fiquei em um campo de concentração onde pessoas eram mortas. Ouvíamos os gritos dos torturados. A dignidade foi a zero, Depois de um mês fui liberada. 

Maria Eugenia desapareceu quando tinha um ano e um mês e Felipe tinha apenas quatro meses. Foi dilacerante perder meus filhos.  

[…]

Vivemos na clandestinidade e em casas diferentes até 1980. Tínhamos mais uma filha, Maria Paz, com quatro meses. Decidimos mudar para o Brasil porque na Argentina não teríamos mais possibilidades de fazer denúncias internacionais e recuperar nossos filhos. 

[…]

Padres da Argentina articularam para que viéssemos para o Espírito Santo, fomos morar no bairro Laranjeiras, na Serra. A Arquidiocese de Vitoria nos recebeu com muito afeto e deu todo apoio, inclusive mobilizando amigos para ficarem ao nosso lado.

[…]

O povo brasileiro nos salvou da loucura. Ter dois filhos desaparecidos e Maria Paz com apenas quatro meses foi devastador.

Naquela ocasião, eu, Beatriz estava entre aqueles que acolheram Ana e Oscar. Muita emoção presente nesse primeiro encontro! 

Imediatamente identifiquei-me e solidarizei-me com suas perdas. Passei a admirá-los porque não se faziam de vítima ou ficavam lamentando sua dor. Pelo contrário, nos contagiavam com seu jeito de ser confiante, amoroso e resiliente. Maria Paz era o centro das atenções! Pura alegria! 

Irradiavam luz. Passavam esperança e certeza de que iriam recuperar os filhos. 

Não esqueço inúmeros momentos festivos em que nos encontramos com Oscar e Ana. Uma vez fomos em sua casa e Oscar fez um churrasco a moda pampeira. Um ritual mágico que durou seis horas. Fez uma churrasqueira cavando um buraco no quintal, colocou carvão, uma grelha e assou seis frangos. Em círculo conversávamos e ríamos enquanto esperávamos. Sabor que ficou gravado para sempre em nossa memória afetiva. 

Oscar e Ana ficaram famosos também pelas empanadas argentinas. As melhores que comi em toda a minha vida. De tirar o fôlego!

Enquanto misturávamos vida, fé, amor, esperança, compromisso, dignidade, solidariedade e luta, Oscar e Ana iam se integrando a uma nova cultura, aprendendo português, fazendo novos amigos, recebendo e dando muito amor.  E para nossa alegria, eles ficaram grávidos e Juan Manoel (Manolo) nasceu em 1981. 

Enquanto isso, na Argentina, as avós da Plaza de Mayo se organizavam para exigir o paradeiro dos 30 mil desaparecidos, entre eles, 500 crianças. Foi um período muito triste e angustiante, mas, as avós não desistiram de procurar seus netos.

Com a guerra das Malvinas em 1983, a luta pela busca dos filhos e netos desaparecidos foi fortalecida. O governo militar convocou eleições diretas em 1984 e teve início o processo de democratização na Argentina. 

O novo presidente, Raul Afonsin, vinculado aos Direitos Humanos, criou a Comissão Nacional de Desaparecidos Políticos. 

Volta para a Argentina – Com a palavra Ana Caracoche

Voltamos para a Argentina em março de 1984. Eu e Oscar fizemos as denúncias e a restituição de Felipe foi rápida porque identificamos o caminho que ele percorreu depois do meu desaparecimento.

 […]

No dia 21 de setembro de 1984 tivemos a alegria de reunir os filhos Maria Paz, Manolo e Felipe (com 8 anos). A restituição exigia apoio psíquico e emocional. Fomos acompanhados por um grupo de advogados, psiquiatras, assistentes sociais e psicólogos. Graças a esse apoio, Felipe foi incluído lindamente pelos irmãos.

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Essa experiência nos fez compreender que cada criança tem um ninho ecológico na mãe, um vínculo que é para a vida toda. Quando ela é desaparecida, preserva o ninho ecológico. O que facilitou a restituição e a inclusão de Felipe.

[…]

Passamos a morar na Argentina e continuamos procurando Maria Eugênia. Ela foi restituída, em 1985, com nove anos. Teve julgamento porque foi apropriada por um militar ligado a ações de desaparecimento.  

[…]

Identidade, Família e Liberdade eram as três bandeiras das avós da Plaza de Mayo. 

[…]

O governo federal organizou um centro de genética onde era coletado sangue dos familiares dos desaparecidos. Essa ação foi um achado cientifico maravilhoso. A ciência ofereceu um suporte que fez a diferença na vida de muitas famílias na Argentina.

 […]

Continuamos participando das manifestações com as avós da Plaza de Mayo. O tema da restituição tornou-se público em campeonatos de futebol, entre outros espaços. As mensagens estimulavam crianças e adolescentes que tinham dúvidas sobre sua identidade a procurar as avós da Plaza de Mayo. 

[…]

Acompanhar a restituição foi muito forte, nós erámos os únicos pais vivos. Várias crianças foram restituídas para as avós, mas os pais estavam mortos. Para mim e para Oscar foi muito importante participar dessa luta como direito à verdade, memória e justiça.

Até 2022, 130 netos foram restituídos para suas avós. Hoje são adultos na faixa etária entre 40 e 45 anos. E estão dando continuidade à luta de suas avós na Plaza de Mayo.

Volta ao Brasil

Depois da restituição de Maria Eugênia, Ana relata que moraram mais três anos na Argentina. Mas decidiram voltar para o Brasil em 1989 porque os militares quiseram dar um novo golpe. Depois de tanto sofrimento, não poderiam reviver situação semelhante.

Com a palavra Ana Caracoche

Voltamos para o Espírito Santo e os amigos nos acolheram com muito amor. Eu passei a atuar no Centro de Defesa dos Direitos Humanos da Serra, onde estou até hoje. Oscar também fez um trabalho importantíssimo no Movimento Nacional de Direitos Humanos com denúncias sobre a tortura, com a criação de leis e dos Conselhos municipais, estaduais e federais de Direitos Humanos.

 […]

Trabalhei na Coordenação do Núcleo de Direitos Humanos da Secretaria de Estado da Justiça e hoje estou aposentada.

[…]

O que me fortaleceu para seguir em frente foi a certeza de que iria ter meus filhos de volta, bem como, o envolvimento na luta pelos direitos humanos, em defesa da vida e da justiça.

Chorei enquanto escrevia esta crônica. Fiquei muito emocionada com tudo que um ser humano passa em termos de injustiça e tentativas de destruição da vida e da família.

Oscar Gatica faleceu no dia 29 de janeiro de 2021. Recebeu muitas homenagens e reconhecimentos por sua luta e contribuições efetivas para a garantia dos Direitos Humanos na Argentina e no Brasil. 

Ana e Oscar sonharam, lutaram e superaram todos os obstáculos.  Construíram uma linda família. Além dos quatro filhos, têm sete netos: Lucas (26), Maria Eduarda (22), Martin (19), Victor (18) Ana Clara (16), Maria Antonia (12) e Sofia (9).

Ana e Oscar são exemplos de que o amor prevalece e que as flores nascem no meio das pedras. Não podemos parar de semear! 

Teria muito mais a dizer, mas, o que cala em minha alma é o desejo de que a tortura seja banida para sempre. Que a liberdade e a democracia vençam. Ditadura nunca mais! 

*Beatriz Herkenhoff é assistente social. Professora aposentada do Departamento de Serviço Social da UFES. Com doutorado pela PUC-SP. Autora do livro: “Por um triz: Crônicas sobre a vida em tempos de pandemia” (2021).

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  1. Avatar de Lívio Pereira Meirelles
    Lívio Pereira Meirelles

    Tive a oportunidade de ser vizinho de muro deles.

    Vivi muitas coisas juntos, – empanadas, amizade, futebol, vôlei…- .

    Felipe um grande amigo.

    Juan Manoel, Maria Paz.. saudades..

    Abraço do amigo Lívio.

    1. Avatar de MARIA BEATRIZ LIMA HERKENHOFF
      MARIA BEATRIZ LIMA HERKENHOFF

      Que privilégio Lívio. Família iluminada e amorosa. Gratidão

      1. Avatar de Maria Eugênia Gatica
        Maria Eugênia Gatica

        Saudades

  2. Avatar de Rachel Ferreira Bastos Avanza
    Rachel Ferreira Bastos Avanza

    Meu senhor e meu Deus!Misericordia🙏

  3. Avatar de Maria Eugênia Gatica
    Maria Eugênia Gatica

    Parabéns Beatriz, uma linda história de família retratada por vc. Obrigada.

    1. Avatar de MARIA BEATRIZ LIMA HERKENHOFF
      MARIA BEATRIZ LIMA HERKENHOFF

      Gratidão Maria Eugênia, sinto-me muito feliz por retratar todo amor, fé, garra, esperança e vitórias presente em sua família. Admiro profundamente Ana, Oscar, filhos e netos. Amo vocês

  4. Crônica muito tocante fiquei muito emocionada ! O amor realmente é capaz de superar tudo ! Que história triste e ao mesmo tempo e uma história de resiliência e superação !🙏🙏🙏

  5. Avatar de Alcir Santos de Oliveira
    Alcir Santos de Oliveira

    Matérias do tipo são sempre muito oportunas, até como um espécie de alerta para que não nos esqueçamos dos tempos, não tão distantes, dos regimes ditatoriais que assolaram o “Cone Sul”, até porque as novas gerações precisam saber, na esperança de que não voltem a ocorrer.
    Beatriz seu texto, sempre vigoroso e tocante chega num momento em que tinha acabado a leitura do “Violeta”, de Isabel Allende, — que trata do tema –, e iniciado a de “Noite da Espera” , do nosso Milton Hatoun, prisões, universidades invadidas, professores demitidos e tudo o mais que a gente viveu. Coincidência?

  6. Avatar de MARIA BEATRIZ LIMA HERKENHOFF
    MARIA BEATRIZ LIMA HERKENHOFF

    Gratidão Alcir por seu diálogo tão rico e profundo. Nada acontece por acaso. Eu publicar sobre a vida, luta e toda a violência sofrida por Ana e Oscar, justamente no momento em que você está lendo Violeta de Isabel Allende e Noites ds espera de Milton Hatoun. Que jamais esqueçamos de tempos tão sombrios. Tortura e ditadura nunca mais

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